“Sabes, não me entra muito bem essa ideia…”, dizia, enquanto passava mais algumas páginas do livro que tinha sobre a mesa e que folheava de cabeça baixa, com indiferença. “Qual?”. Respondeu, “A de passar por várias camas assim tão de repente”. Durante muitos anos tinha sido mulher de um só pénis, e de um momento para o outro, em coisa de meses, os pénis foram entrando e saindo da vida dela. A princípio tinha sido apenas o pénis dele. Mas depois seguiram caminhos divergentes, e veio um pénis diferente. Não resultou, veio outro. Dois meses volvidos, novo pénis. Em coisa de seis meses tinha recebido em si mais pénis do que em todo o resto da sua vida.
“Foram equívocos. Estava a tentar encontrar-me!”, “E estavas tu a tentar encontrar-te nos pénis dos outros?”. Parecia que estava. Fazia-lhe, era certo, tremenda confusão. Não tanto por puritanismo. Por território, talvez. Por magia quebrada. Eventualmente por vulgaridade ou banalização. Quando pensava que em tempos o pénis dele tinha estado dentro do corpo dela, e que pouco tempo depois vários outros homens tinham feito a mesma coisa, havia um sentimento estranho que o invadia, como se não fosse aquela a pessoa que conhecia. Era sinistro.
“Bom, talvez não sejam os pénis dos outros a criar-me esta sensação, sabes?”, “Então, se não é isso, o que é?”. Era o pénis dele. A aceitação de que ele não era melhor nem mais do que os outros, que os laços e espaços conquistados não se esgotam, recriam-se. Aceitar os pénis dos outros dentro do corpo dela mesmo quando o corpo dela já não lhe interessava não era um problema de ciúme, nem de preconceito. Não era julgá-la puta, devassa, maluca. Era entender-se a si mesmo como apenas um entre os restantes. Aceitar que não era tudo para todos, era parte, era momento, era espaço que se estica e depois encolhe, muda de forma, cores cheiros e sabores. E que todos os prazeres que lhe dera, outros podiam dar também. Quem sabe, até mais. Por muito mais tempo.
Seria, sobretudo, aceitar-se banal, dar um passo atrás da ideia de ser especial. E afinal, bem visto, tinha muito pouco a haver com sexo, com pénis e vaginas. Mas mais com o que faz de nós únicos e, ao mesmo tempo, tão simples, banais e substituíveis.




Parabéns que está espectacular!
O evoluir do texto, a chave final e até o título.
O que nos fascina e dói no sexo não é mesmo o propriamente dito mas a imagem que fazemos de nós a partir dele.
Antes de mais, um à parte: gosto mesmo muito da maneira como escreves!
Sabes, por também “não me entrar muito bem essa ideia”, tenho ultimamente perdido algumas oportunidades. Também não é por puritanismo (que de puritana não tenho nada) mas porque, depois de longos e mágicos anos do mesmo, me assusta e faz confusão essa sensação de magia quebrada, de tentativa e falha, de banalização do que considero poder ser tão mais do que apenas pénis!
Beijinhos,
T
@Maria_Árvore: Obrigado. Quando outros (ou outras) entram nas nossas cenas de cama (as que foram, as que estão na memória) e as invadem, é o que fica de nós que incomoda. Ou o que não fica. Parece-me.
@Teresa: Muito obrigado pelas tuas palavras. Faço o que posso.
Claro que neste pequeno texto reduzi tudo a pénis e vaginas, mas como muito bem dizes, esses pénis e vaginas são meros representantes de algo muito maior, que liga as pessoas e outras vezes as afasta.
Deixei-te um desafio chez moi.