O elevador, esse espaço de vaidade

Hoje, subindo de elevador até aqui, deu-me para reparar que quase todos os elevadores que conheço têm um espelho. Tive “quatro pisos de tempo” para pensar acerca da utilidade de colocar espelhos dentro das cabinas dos elevadores. Ocorreu-me que fosse um aspecto estético, que contribuisse para dar a sensação de que a cabina é maior do que efectivamente é, por ilusão óptica. Mas não faria muito sentido, ainda que possível, porque quando se tenta encher um elevador há um ponto em que nem toda a ilusão funciona. Ou é a porta que não fecha, ou o apito de sobrecarga que avisa.

Pensei também que fosse para permitir aos casalinhos que praticam a berlaitada em ascensão, a célebre rapidinha de elevador, poder usar o espelho do mesmo modo que utilizariam os espelhos em quarto de motel, para observar de outro ângulo enquanto os seus corpos se fundem de modo meio atabalhoado. Mas isso também não dá muito jeito, convém que pelo menos um deles mantenha um olho na passagem dos andares para saberem quando parar a brincadeira. No mais, são poucos os elevadores que frequento com andares suficientes para uma berlaitada bem dada. Aqui por exemplo, com apenas cinco andares servidos por elevador, mal dá tempo para piscar um olho – excepto quando decidem parar entre dois pisos, o que não dá alegria nenhuma.

Resta-me, então, uma explicação: os elevadores são espaços de vaidade. Espaços onde as pessoas podem virar costas ao edifício que desliza, aparentemente, e centrar-se nas suas próprias caras e cabelos. Fazer caretas. Uma câmara que captasse as caretas que as pessoas fazem (eu também já fiz) aos espelhos dos elevadores resultaria certamente em momentos bem divertidos, muitos dos quais com que nos poderiamos identificar.

Os elevadores transportam gente em muitos contextos. E quase todos têm algo em comum: gente que sobe ou desce e quer estar arranjada para ir ao encontro de alguém. São espaços de vaidade, com espelho.


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