Durante muito tempo pensei que um workaholic, ou viciado em trabalho, era uma pessoa que cumpria todos os seus horários de trabalho escrupulosamente e ainda fazia umas horas extraordinárias. Pensava, também, que um viciado em trabalho era alguém que teria a sua mesa com pilhas de papel e que andaria sempre a correr de um lado para o outro ou a desdobrar-se em reuniões e contactos. Ingenuidade minha, que o tempo viria a corrigir.
Um workaholic pode ter pilhas de papel na mesa e até pode andar em correrias e saltitando de reunião em reunião, mas o quadro que o define é muito mais abrangente e mesmo quem não pensava ser viciado em trabalho pode, afinal, ser.
Nunca me reconheci como workaholic porque detesto horários. Logo, na minha concepção original, se os detesto e tenho o privilégio de não estar obrigado a fazê-los, não posso estar viciado em trabalho, pensava eu. O facto de muitos outros olharem para mim como uma espécie qualquer de preguiçoso – porque aparece por volta das 11h – terá contribuido para criar em mim a ideia de que poderia não ser o mais aplicado dos trabalhadores e, portanto, jamais seria um viciado em trabalho. Logo eu que, como tantos outros, aprecio estar sentado ao computador a olhar para o nada… até que compreendi que mesmo quando fazia isso, estava a trabalhar. E mais tarde descobri que quando vinha para casa, vinha a trabalhar mentalmente. E que em casa ligar o computador era muitas vezes a primeira coisa que fazia, antes de lavar as mãos, descalçar-me, ou então de manhã, mesmo antes de esvaziar a bexiga. E não gostar de horários, afinal, tem mais do que uma explicação. A pública e a privada. A pública é porque os considero redutores, e porque quero evitar o trânsito e as confusões da manhã. A privada… talvez porque os horários, quando aplicados, me impediriam de viver o vício. Iam forçar-me a separar as coisas, a desligar-me à hora certa.
Julgo que as ligações em rede e o gostinho pela informática – embora, como sempre insisto, eu não seja um informático – me ajudaram a seguir essa via muito perigosa, em que o lazer e o trabalho se misturam e perdem fronteiras definidas. Poderia ser uma benção, muitas pessoas diriam que poder misturar trabalho e lazer seria o seu sonho, e que ser pago por isso ainda mais. Mas quando é para lá da conta certa, torna-se perigoso. É cansativo não conseguir separar trabalho de prazer, é cansativo não conseguir… descansar.
À sua maneira, um dos meus dias de maior ansiedade foi quando, há tempos, tive férias. No meu último dia de trabalho, ou melhor, nas minhas primeiras horas de férias, regressei a casa com ansiedade, com ritmo acelerado, com uma inquietude que não queria compreender, só queria que fosse embora. Se me permitir pensar sobre isso saberei que me inquietava como tudo iria correr na minha ausência. Talvez tenha vivido demasiado tempo a achar que as coisas só estão bem feitas quando sou eu quem as faz. É mentira, e é mau para mim. Às vezes é verdade, mas continua a ser mau para mim.
Um workaholic não é, de facto, quem tem pilhas de papel na mesa e está sentado no seu escritório às sete ou às oito da manhã. Poderá até fazê-lo, mas não é isso que o define. Um workaholic é alguém que não se desliga do trabalho, que se deita a pensar como vai resolver algo e acorda com essa mesma ideia. Talvez eu devesse experimentar sentar-me a trabalhar às nove e meia e sair às cinco e meia ou seis da tarde. Só para ver se isso me ajudaria em alguma coisa. Talvez eu não devesse chegar às onze e sair às vinte, com um intervalo de almoço de meia-hora que acontece por volta das duas da tarde, quando durante toda a manhã andei a fazer coisas de trabalho, e à noite depois de jantar ainda me sento no computador a fazer mais coisas de trabalho até à meia-noite. Talvez eu não devesse estar sequer a um Domingo aqui a escrever sobre isto. Mas talvez isso seja, também, necessário.
Talvez um susto. Pode ser isso que algum dia me obrigue a mudar a forma de estar. Mas é como levar um murro na barriga perceber-se que tendo-me julgado sempre um preguiçoso sou, afinal, um viciado em trabalho que não se desliga e nunca relaxa. E não é essa a vida que quero e também não quero precisar de um susto valente para acordar.



