A liberdade de expressão não existe. A não ser, talvez, num local deserto onde podemos falar sem que nos oiçam, ou no segredo do nosso pensamento onde ninguém penetra. Quando convivemos com outras pessoas deixamos de ter liberdade de expressão. Porque podemos ofender quem não queremos ou porque podemos dizer coisas que vão contra as opiniões vigentes.
Há países onde a liberdade de expressão não existe, de facto, e onde as opiniões contrárias ao que a política ou religião ditam são severamente punidas. Em alguns casos mesmo de forma capital. Noutros, em que o sistema político se diz democrático, a liberdade de expressão continua a não existir porque existe censura do próximo. O nosso próximo e semelhante, na sua susceptibilidade, censura-nos, e toldamo-nos, encolhemo-nos, e quem decida abrir a boca de forma despudorada eventualmente encontrará dificuldades na vida.
Quem viveu em Portugal antes de 1974 conta que era perigoso emitir algumas opiniões, porque existia censura, existia perseguição, as pessoas iam parar às cadeias por dizerem coisas que afrontavam o regime existente na altura. Eu não vivi essa época, posso apenas confiar que aquilo que contam é correcto. A diferença, para os dias de hoje, será a possibilidade de escrever, de falar, e não ser preso por isso. Mas… terei eu hoje muita mais liberdade do que a que teria antes de 1974 ou noutro qualquer país que ainda hoje reprima a expressão das pessoas?
A pergunta é tão simples quanto: sinto eu poder dizer tudo quanto me apetece?
Não.
Tenho de ter muito cuidado ao falar de opções sexuais porque posso ser retrógrado e atentar contra as liberdades individuais. Tenho de ter muito cuidado ao referir-me a alguns grupos de pessoas com características similares porque posso ser racista ou xenófobo. Muito cuidadinho se falar mal de médicos porque posso precisar deles (as pessoas partem a loiça toda com as empregadas, mas quando se sentam no consultório é só sorrisos para o sôdoutor mesmo que ele tenha chegado 3 horas atrasado). Falar mal do governo não é para todos… a política está em todo o lado e nunca sabemos quando precisamos estar em estado de graça. Não se pode dizer tudo sobre religião porque nem todas são tolerantes. Não se pode entrar em discussões Linux vs Windows porque há fanatismo em ambos os lados. Não convém falar mal de funcionários públicos porque podemos precisar deles numa repartição qualquer. Criticar opções de chefia é perigoso, e nem preciso explicar porquê. Ai de mim falar mal de jornalistas, que vão andar à procura de um alfinetezinho qualquer no palheiro para empolar e distorcer.
Em suma, e com poucos exemplos – de relevância variável -, se conclui que não posso dizer tudo quanto me apetece quando apetece e que, por isso mesmo, não sinto que exista liberdade de expressão. A não ser quando estou sentado na sanita. Aí posso dizer tudo e fazer todas as caretas que precise. Mas fora dela, calado caladinho é quanto se precisa para seguir os dias sem mais obstáculos do que aqueles que já aparecem sem se pedir.
(Nota: este artigo surge no seguimento de uma coisa que o Macaco escreveu no seu blog)




Primeiro que tudo acho que está a confundir liberdade de expressão com “dizer tudo o que vem à cabeça”. São duas coisas distintas. Depois parece-me bastante ofensivo para quem sofreu com o regime de salazar questionar se tem mais liberdade de expressão que então. Só o facto de poder escrever este blog já é um direito conferido pelo 25 de Abril, antes pode ter a certeza que não o poderia fazer.
É evidente que nunca poderemos dizer o que nos vem à cabeça sem consequências, a diferença está no tipo de consequências. Concordo que nos dias de hoje começa a vislumbrar-se um ambiente de censura por todo o lado: nos empregos, na comunicação social…Mas acredite que mesmo assim, estamos longe do tempo da PIDE.
E se para lá caminhamos a nós todos temos de agradecer, porque não usamos o única forma de decisão que temos numa democracia (o voto), porque nos acomodamos quando nos chamam para nos manifestarmos, porque somos os primeiros a discriminar ou a marginalizar quem não pensa como nós.
Agradeço desde já o facto de me permitir expressar a minha opinião o seu blog.
mãe de dois, não estou a confundir liberdade de expressão com dizer tudo o que me vem à cabeça porque tenho em mente situações em que tenho opiniões fundadas sobre assuntos que entendo não dever abordar porque, de algum modo, contrariam aquilo que é politicamente correcto dizer-se. Nesses casos, quaisquer coisas que eu pudesse dizer ou escrever, fruto de maturação de ideias e sentimentos ao longo do tempo, seriam potencialmente sujeitas a forte censura (ainda que eu estivesse certo!).
São tantos os exemplos disso, e tantas vezes o tenho observado na minha vida pessoal e profissional, comigo e com outros ao meu lado, que não sinto que seja qualquer tipo de insulto perguntar-me se não se substituiu um tipo de ditadura por outro. Continuamos a ter ditadura de opinião. Antigamente as opiniões tinham de estar à direita. Agora precisam estar à esquerda. Quem as queira ter ao meio, ou oscilantes, tem dificuldades.
Há muitos tipos de mordaça, não apenas as que se aplicam por via de tortura, prisão ou morte.