Ora toma, que das cinzas consegues fazer o que vivo não fizeste

Sempre vaticinei o fecho da Playboy portuguesa, mas por razões diferentes. Sempre me pareceu que a Playboy portuguesa tinha dificuldades em vingar num mercado pequeno, em fornecer aos seus leitores produções fotográficas de qualidade. Não esperava que fechasse (pelo menos com este nome, porque poderão eventualmente querer continuar com outro título) por esta razão. Mas acho muito, muito bem. Não escondo a satisfação. Há limites.

É possível ler aqui:

Para assinalar a morte do Nobel da Literatura, a Playboy portuguesa inspirou-se no romance «Evangelho Segundo Jesus Cristo» e colocou um homem vestido de Jesus a «brilhar» no canto do quarto, enquanto ao lado o fotógrafo regista uma cena de sexo lésbico. Cristo aparece ainda ao lado de uma prostituta e de uma rapariga em topless, que parece ser uma estudante de um colégio católico. Há ainda uma mulher com uma caçadeira, enquanto Jesus observa.

Consequentemente:

Em declarações ao site norte-americana Gawker, Theresa Hennessy, vice-presidente do departamento de relações públicas da Playboy Entertainment, garantiu que a empresa não aprova a capa ou as imagens da sessão fotográfica. «Não teríamos aprovado a publicação, se a tivéssemos visto antecipadamente. Como resultado, vamos rescindir o contrato com Portugal».

Ora bem, acho isto tão deliciosamente poético que até tenho dificuldades, a sério que tenho, em articular um discurso eloquente, estou ainda banhado pela beleza deste arranjo desconcertante que é saramago, a Playboy, e Cristo. É que, vejam bem, saramago sempre se divertiu a desdenhar da fé, em particular da fé católica. Escreveu barbaridades sobre Cristo, e quando a Playboy vem invocar um dos seus livros, é por Cristo que o veículo onde isso acontece é fechado. Em suma, Cristo vence saramago. Não é motivo de surpresa, é sim um motivo de júbilo.

Sou, assumo, um pecador. Nunca comprei a Playboy, mas vi boa parte das imagens que nela foram publicadas, e passei os olhos na diagonal pelas mais recentes, tendo ficado profundamente desagradado. O respeito zeloso pela fé que comungo dita que não devo sequer observar as imagens da Playboy. Nesse aspecto, assumo, pequei muitas vezes. Mas isso não significa que aceite ter Cristo misturado com essas imagens. A escolha da Playboy foi de um tremendo mau gosto. Não pode valer tudo. Recuso aceitar a ideia, muitas vezes propalada, de que no humor e na arte não podem existir limites, que nada está a salvo, que a liberdade dita que tudo está a saque e pode ser sujeito a brincadeira e subversão ou relativização. Não pode ser assim. É necessário o respeito. Pergunto-me se quem relativiza tudo também acha piada a ter, por hipótese, anedotas em torno de um cancro dos seus pais, ou se gostaria, porque não, de ter na capa de uma revista uma imagem de um familiar próximo seu, morto, rodeado de gajas nuas. Desconfio que não gostaria.  E se gostasse, temo que não tivesse uma cabeça saudável.

E, assim, desculpai o desarranjo deste texto, mas um pouco a quente, ainda, a satisfação impede o arrumo das palavras, sou ainda uma criança demasiado feliz com muitos presentes a desembrulhar no Natal para conseguir focar-se nos detalhes de cada um, e que por isso apenas reage com uma euforia desajeitada.


1 comentário

  1. João concordo.
    Acho que houve um excesso por parte da revista.
    Apesar de não gostar de Saramago, reconheço algum mérito nos seus livros, e acho de muito mau gosto esta publicação.
    Há que respeitar as pessoas, e imagino que para a família terá sido chocante depararem-se com estas imagens.
    Tudo na vida tem um tempo certo para acontecer, e este não foi o ideal para esta publicação.
    Apesar de ter ideias próprias sobre a religião católica, respeito a Igreja, e respeitos as outras opiniões.
    Foi realmente um erro lamentável.

    Bjs.

    Manuela

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