Não fui um seguidor de Lost desde o primeiro momento. Quando a RTP passou os primeiros episódios, recordo-me de ver alguns minutos, apenas, e de não ter entendido nada. Tão depressa os via na praia com um avião em fanicos, como logo a seguir os via em cenas quotidianas. Esses pedaços não chegaram para me agarrar à série. E, note-se, não tinha apreendido logo na altura o conceito da série.
Não tenho a certeza, francamente não me recordo, mas penso que só comecei a ver Lost em 2006, altura em que, lendo algumas coisas escritas em blogs, me deparei com um texto que apresentava o conceito da série e aí sim, pareceu-me interessante. Voltei atrás, aos primeiros episódios, e vi as duas primeiras séries quase em acto contínuo, nunca na televisão porque, como se sabe, acompanhar séries de televisão nos canais portugueses abertos é um exercício penoso. Os canais de televisão portugueses não respeitam ninguém. Os horários mudam, ou são para turnos da noite, ou desistem de emitir ou não compraram mais episódios e a pessoa fica pendurada. Em suma, séries de televisão são para ver de qualquer outra maneira, desde que não em canal aberto, em algum dos nossos 4. Em canais por cabo a coisa é diferente.
Há algumas séries que começam bem e acabam mal. Há séries das quais desisti porque perderam o rumo. É o caso do Heroes, que achei extremamente interessante mas que, algures na terceira época, perdeu o tino e deixou de ser agradável seguir o intrincado daquela história. É também o caso de The L Word, que teve episódios muito interessantes, mas depois da segunda época já praticamente todas se tinham comido umas às outras e o argumento era uma sopa de sexo e mulheres histéricas. Ou até mesmo Californication, que num estilo muito cool também redundou num show de sexo e engate fácil. E depois há outras séries que eu quero ver mas ainda não tive tempo, como Nip/Tuck, 24, Stargate Atlantis (esta para terminar, porque cheguei a ver as duas primeiras épocas), e ainda outras que estou a seguir, como o Fringe, e o Flashforward que entretanto foi cancelada.
Em domínio de interesse, ao ponto de ver, religiosamente, todos os episódios, e até mesmo, por vezes, levantar mais cedo para os ver antes de ir trabalhar, temos Babylon 5 e Lost. A primeira, há muito terminada, a segunda, terminada apenas há poucos dias. Lost veio trazer um actor que já conhecia de uma outra de há vários anos, Party of Five, e mais algumas caras conhecidas, embora para nós, portugueses, a maioria do elenco de Lost fosse de desconhecidos ou quase desconhecidos. O enredo era, ou foi, muitas vezes desconcertante, e no equilíbrio entre o inusitado do que se passava naquela ilha e os flashes do que tinha sido a vida daquelas pessoas até ali, havia sempre motivos de interesse. Levámos boa parte de Lost a conhecer as personagens. Os seus defeitos, as opções e os desejos. No essencial, a série tem até um pressuposto muito simples. Somos levados a conhecer gente, e isso é talvez o mais importante. Todo o misticismo da Ilha acaba por ser um adicional, uma cereja para quem aprecia uma boa componente de mistério e aventura numa série. Mas o essencial, repito, foi conhecer gente. Saber quem eram, o que fizeram até cair ali.
O último episódio de Lost provavelmente precisa ver-se mais do que uma vez (como aliás, toda a série, a seu tempo). Na primeira vez está-se demasiado expectante e não se faz a leitura de todos os detalhes. No meu caso particular, por não ter ouvido na perfeição os diálogos, falharam-me algumas palavras que fazem toda a diferença no entendimento daquele final. Não pode dizer-se que a série termina com todas as respostas dadas. Há pontas do novelo que ficam razoavelmente soltas, e outras que podiam explorar-se mais, embora isso nos pudesse distrair do essencial e levar a série para uma extensão que nos levaria a desligar (como aconteceu com outras que perderam o rumo), ou a criar ainda mais pontas soltas que depois seria muito mais complicado atar e explicar em definitivo.
Com a evolução da sexta época de Lost, começava a parecer-me improvável que eles algum dia deixassem a Ilha. Não estava à espera de um final feliz, em que todos casam e têm muitos filhos. E, de facto, não foi esse o final que nos ofereceram. Descobrimos que tudo quanto vimos foi real, que a Ilha existe e tem características muito particulares – que não são inteiramente explicadas, e isso é uma das pontas soltas -, e que efectivamente aqueles desgraçados cairam ali e andaram perdidos para trás e para a frente no tempo. Percebemos que ao longo dos séculos (talvez milénios) chegou muita gente que se instalou. Vemos templos antigos e instalações mais contemporâneas, de investigação. E chegamos ao fim sabendo que todos ali estão mortos. Não mortos pelo acidente, mas mortos algures no decurso das suas vidas. A minha interpretação é a de que as vidas paralelas, em que todos pareciam ter corrigido as suas faltas, são, à falta de melhor palavra, uma espécie de purgatório. Uma existência temporária, onde corrigem as suas falhas, resolvem ou pacificam os seus conflitos. Da Ilha sairam realmente os que iam a bordo do vôo Ajira. A Kate, e o Sawyer, podem ter vivido muitos anos fora da Ilha, e na primeira vez que eu vi o final caí na asneira de pensar que os eventos precisavam ser paralelos, contemporâneos. Não é de facto assim. As pessoas que vemos naquela reunião final estão de facto mortas, mas não precisam ter morrido todas quase ao mesmo tempo. É como Christian diz: algumas morreram antes de ti (Jack), outras muito depois.
É um episódio muito forte. Emotivo. É um bom episódio, é um final digno para uma das melhores séries de televisão dos últimos anos, para os apreciadores do género. É uma das poucas séries que eu vou querer ter e guardar, para rever, talvez de 10 em 10 anos, esperando que continue actual, capaz de surpreender com alguns detalhes que me tenham escapado antes.
Não me sinto defraudado. Gostei! Estou é com falta de séries… as coisas que me interessavam ou já acabaram, ou estão para acabar.



