Faz hoje um ano que fui convidado para assumir novas funções, o que fez com que, daqui a poucos dias, no dia 1 de Junho de 2010, passe precisamente um ano desde que as iniciei. Em um ano, a minha vida mudou bastante, e nada mo faria supôr. Eu fui convidado para trabalhar naquilo que hoje faço no exacto dia em que cheguei ao meu destino de férias. Estava fora do meu país, algures no centro da Europa, e assim que liguei o meu telefone começaram a chover mensagens a alertar para telefonemas não atendidos, e gente a telefonar-me. Recordo-me perfeitamente de, ainda com malas na mão, dizer à minha mulher algo na linha do “porra, que nem em férias me deixam em paz”. Rejeitei a primeira tentativa de contacto e enfiei-me no metro até ao hotel.
Na sexta-feira anterior eu tinha arrumado a minha mesa de trabalho apenas e só porque não queria deixar as coisas desarrumadas durante a semana em que estaria fora. Para o meu regresso tinha planeadas uma série de coisas, havia processos em curso, coisas que eu queria completar e com as quais me sentia entusiasmado. E o entusiasmo, convenhamos, não era coisa muito habitual naquela casa onde eu prestava os meus serviços. Era, por isso, algo digno de nota. Abandonei a minha sala, naquela sexta-feira, com um sentimento puro de férias. Dois dias depois enfiar-me-ia num vôo muito madrugador para Munique, e depois para Viena, e era apenas isso que dominava o meu espírito. Não ia descansar, fisicamente, mas ia ver coisas com mais calma (depois de lá ter estado semanas antes para participar na EGU) e esquecer temporariamente o trabalho. A surpresa viria na curva, mas eu não o sabia.
Chegado ao hotel, a largar malas, volta a tocar o telefone. Por essa altura já um SMS me tinha avisado de que havia alguém à minha procura, e por isso, quando o telefone tocou, atendi. Do outro lado perguntou-me a pessoa “Que anda V.Ex.a a fazer por Viena?”. De férias, disse eu. E a seguir, “e quer trabalhar comigo?”. Fiquei surpreso de uma maneira que não consigo explicar, e aquilo que conversei a seguir com a minha mulher é algo que fica apenas entre mim e ela. Digo, com segurança, que as minhas férias deixaram de o ser naquele mesmo momento. Todos os dias que se seguiram, entre o convite por telefone, a milhares de quilómetros de distância daquilo que ia deixar e do que ia abraçar, foram de algum modo dominados pela curiosidade, pela incerteza, por alguma excitação, e pelo medo do desconhecido.
Coincidentemente, o meu vínculo profissional ia alterar-se no dia 1 de Junho, e por essa razão este convite pôde ser aceite sem qualquer tipo de formalidade junto da entidade a quem eu antes prestava os meus serviços. Foi uma transição limpa, simpática, compreendida por quem me viu partir. Era um convite que não podia recusar-se. Eu não sabia, na altura, tudo o que o convite encerrava. Conhecia apenas os traços gerais. Sabia dos meios que ia ter ao meu dispôr, sabia da remuneração interessante que me prometiam, conhecia vagamente aquilo que teria de fazer. Mas viria a descobrir, com o passar dos dias, ao longo deste ano, que a função tinha muitas mais coisas que não estavam sequer em letras pequeninas, e que tudo aquilo que era aliciante, embora continuasse – como aliás continua – a ser aliciante, não era isento de sofrimentos e desgaste. Soubesse na altura o que sei hoje, e teria dado a mesma resposta. Não há arrependimentos. Apenas um enquadramento muito mais preciso do que significou dizer “sim” naquele dia. A noção, agora clara, de que não há bela sem senão, de que o pêlo do qual já muito me saía, passou a ser saída de ainda mais. Dizer que sim, naquele dia, mais do que suprimir a sensação de férias, veio trazer-me experiências novas que são contrárias ao meu temperamento e, portanto, àquilo que eu escolheria fazer se fosse algo voluntário. Vi-me perante situações das quais normalmente fugiria, porque não me cativam. Se já antes era difícil ter férias quando toda a gente as tem, passou a ser impossível. Tornei-me escravo de um telefone móvel que não escolhe horas para apitar. Deixei de ter fins-de-semana e feriados. A vida que tinha antes do “sim” já não era exactamente o que se poderia classificar como normal. Mas a que veio a seguir ao “sim”, perdeu o pouco de normalidade que ainda existia.
Estas observações, que agora faço, não são um queixume. São uma contextualização. Não posso, em rigor, queixar-me. Não tenho, notem bem, um emprego para a vida. Nem o quereria. Nem creio que isso faça sentido. Tenho uma situação laboral diferente da que tinha, mas ainda assim temporária. E tenho a clara percepção de que algum dia, por alguma razão, provavelmente fútil, vou levar um pontapé no cú. E quando o meu cú levar esse pontapé vou ter a vida mais normal possível. Estarei desempregado. Mas até lá, gosto daquilo que faço, apesar dos sofrimentos ocasionais. Gosto da evolução que esta experiência me tem proporcionado, gosto de ver o outro lado do espelho, conhecer as duas partes de algo que se relaciona muito – desculpem não entrar em detalhes – e onde, por vezes, havia um discurso de rivalidade (que hoje me parece profundamente pateta).
Um ano depois, a difícil transição está, em muito, sanada. Subsiste o prazer do serviço público. De entrega perante algo maior do que eu mesmo, mesmo quando isso nem sempre seja entendido, mesmo quando as críticas sejam injustas. Subsiste a noção de que ao longo deste ano tentei fazer sempre o melhor que sabia, mesmo quando isso me custava. Subsiste essa determinação. Por quanto tempo, não sei dizer. Orbito demasiado perto do Sol, ainda que o Sol não me interesse. E isso queimar-me-á mais cedo ou mais tarde. Mas onde a maioria das vezes falar-se de serviço público é um lugar comum vazio, comigo não. Herdei do meu pai esse valor. O de servir. E é esse valor, a par com outros que o meu pai e mãe me deixaram e vão deixando, que oriento os meus dias aqui. Uns dias melhores que outros. Como tudo, como todos.




estas com sorte porque eu licenciei me à 5 anos em geografia e nunca tive essa oportunidade mesmo acabando como o segundo melhor da minha turma.