Estive hoje numa cerimónia religiosa em Lisboa, num colégio católico onde os paizinhos, para lá meter os filhos a estudar, precisam ter um certo nível de vida. E isso nota-se quando há ocasiões como a de hoje, em que o estacionamento se enche de carros de alta cilindrada e o meu pequeno Clio vermelho-comido-do-sol de 1993 se mistura sob o eventual desdém dos demais. Também se nota, além dos carros, pelo aspecto bem cuidado dos presentes, roupa boa, gente bem arranjada. Mas, depressa se percebe, o arranjo é mais exterior do que outra coisa e se é provável que saibam comportar-se lindamente em restaurantes finos e em óperas, é depressa evidente que numa eucaristia não sabem estar. Para ajudar, não vá algum deles ler alguma coisa minha por acidente, deixo umas dicas de bom comportamento dentro de uma Igreja e sobretudo durante uma eucaristia:
1) Não interessa o motivo… não se anda na igreja a tirar fotografias. As fotografias tiram-se na rua. Não se anda a passar à frente do altar durante uma celebração, nem se anda a disparar flashadas na cara dos sacerdotes. É feio estar a decorrer uma cerimónia que requere recolhimento e haver um amontoado de gente perto do altar a fotografar, que quase só lhes falta sentar ao colo do sacerdote para ter uma perspectiva mais favorável.
2) Não se conversa dentro da igreja como se se estivesse na esplanada. Porque uma igreja, lá está, não é uma esplanada. Não é um sítio para sentar e cruzar a perna e ficar à conversa com os vizinhos do lado enquanto o “espectáculo” não começa. A igreja é um local de culto, onde se deve procurar manter uma postura digna e de respeito perante Deus.
3) Quando se entra numa igreja deve procurar-se o Sacrário (o Sacrário é o local onde se guardam as partículos consagradas, i.e., as “hóstias”, que depois de consagradas se tornam Corpo de Cristo, e portanto são o próprio Cristo, e por isso se lhes deve respeito) e perante o Sacrário deve dobrar-se o joelho e fazer-se o Sinal da Cruz. Quando se passa de um lado ao outro da igreja não se faz todo o trajecto sem prestar atenção ao Sacrário. Se passamos ao centro da Igreja e o Sacrário está ao centro do altar, fazemos aí a devida genuflexão. Se o altar não tiver o Sacrário mas apenas uma cruz, é suficiente fazer-se uma vénia (a genuflexão reserva-se ao Corpo de Cristo). Quando chegamos a uma igreja é incorrecto sentarmo-nos à espera do “show”. A atitude correcta é ajoelhar, oferecer a Cristo a nossa presença na eucaristia pela intenção que tivermos em mente e orar um pouco, e depois sim, sentamo-nos.
4) Quando o sacerdote diz “Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo….” é a altura para se fazer o Sinal da Cruz.
5) Durante a consagração, quando o sacerdote eleva o cálice e as partículas deve-se estar de joelhos. Nunca sentados, e preferencialmente não de pé, mas ajoelhados. É o momento mais importante da eucaristia, em que o pão e o vinho se transformam no corpo e sangue de Cristo. Se prestamos tamanha reverência a pessoas iguais a nós (presidentes disto e daquilo, reis daqui e d’acolá) porque raio temos vergonha de dobrar os joelhos perante Deus? Faz-me cá uma impressão isto…
6) Quando há a saudação entre os fiéis não é correcto correr a igreja toda à procura dos amigos ou familiares. É suficiente saudar as pessoas ao nosso lado, o gesto é simbólico, não é para beijocar todos os conhecidos. Queremos demonstrar o amor Cristão pelo próximo, não queremos transformar a eucaristia numa feira de Carcavelos!
7) Pessoas que nunca vão à missa e nunca se confessam não devem (não podem) ir à comunhão. E as que vão, devem fazê-lo preferencialmente na boca (a comunhão na mão é permitida mas não é correcta por razões que me levariam longe) e devem genuflectir antes de comungar. Não devem vir pela coxia a mastigar como quem come pão, devem deixar a partícula amolecer e desaparecer sozinha, e depois deve haver um momento de recolhimento interior. Sobre a genuflexão prévia ao acto de comungar há a observar que esta prática, agora muito estranha na maioria das igrejas, deve manter-se. Se não acreditamos naquilo que vamos fazer ao comungar não devemos sequer ir. Se acreditamos, então não nos surpreenderá nada o porquê de dobrar o joelho perante o corpo de Deus.
8.) Quando as partículas consagradas recolhem de novo ao Sacrário (depois da comunhão), os fiéis levantam-se. Em algumas igrejas essa recolha adopta a forma de uma pequena procissão (nas que têm o Sacrário fora do altar, o que é lamentável), nas que têm o Sacrário no local correcto, no altar, esse momento pode passar mais despercebido a quem não esteja habituado, mas se seguirem com atenção os gestos dos celebrantes, percebem.
9) Na benção final é conveniente que se esteja também de joelhos, para melhor aceitar a benção que Deus, através do sacerdote, nos concede.
10) Embora nós, católicos, não sejamos tão restrictivos quanto à roupa nos locais de culto (como são os muçulmanos) convido as senhoras (fundamentalmente as senhoras, nos homens há menos problemas destes) a pensar se lhes parece bem ir para a igreja com decotes até ao umbigo, com saias apenas dois ou três centímetros abaixo da genitalia, com transparências ou com calças de cintura tão descaída que de frente se conseguem ver pêlos (as menos cuidadas!) e de trás boa parte do rabo. Não preciso dizer porquê. Pensem só nisto por instantes, imaginem o aspecto da coisa, o local onde estão, e não devia precisar dizer-se mais nada.
Por fim, se nada do que escrevi antes vos faz sentido, se vão à igreja por formalidade, porque foram convidados mas não acreditam em nada daquilo e acham tudo banalidades, há pelo menos uma coisa que podem fazer e que fica sempre bem: usar da boa educação. E tentar perceber, pelos outros, como proceder (ainda que o exemplo actual na maioria dos casos não seja dos melhores, infelizmente, mas pelo menos se imitarem os outros sempre evitam sentar-se no momento da consagração). Se não entenderem nada, se tudo aquilo vos for maçador, tentem ao menos fazer o mesmo esforço que fazem em restaurantes finos. Com o tempo, se forem persistentes, irão percebendo como estar.
O Homem é cheio de paradoxos. Não escrevo isto porque sou perfeito, sou um banal pecador. Mas ficaria muito feliz se com a ajuda dos meus comentários pudessem todos participar melhor nas eucaristias, e com o tempo inclusivamente excedendo as sugestões que vos faço, vivendo intensamente as eucaristias, com todo o respeito que merecem e recolhendo todo o valor que têm.




Há um padre que conheço que diz com graça que é do Belenenses mas não é praticante. E como fiz a Comunhão Solene com 10 anos, deixei de praticar.
De modo que assim afastada parece-me coisa de loucos os comportamentos que descreves mas creio em ti em como eles existem. Lembrei-me que na Mesquita de Lisboa também tive de me descalçar. É que como dizes, basta apenas respeito pelos outros.
Maria árvore, quando eu praticava Karaté o meu sensei dizia muitas vezes que os pais tiravam os filhos do karaté porque já tinham chegado a cinto negro (eu saí por outras razões, nunca cheguei a cinto negro) e ele ficava pasmo com aquilo, porque, dizia ele, o objectivo do karaté não era chegar a cinto negro e parar, era um estilo de vida.
Sobre as várias faltas de decoro e/ou educação que há nas igrejas, para além do alheamento à fé que muitos têm (e estão nesse direito) há um nacional-umbiguismo muito grande, um excesso de “Eu” que se sobrepõe em grande medida ao respeito pelos outros. E isto atravessa todas, todas as coisas da vida em sociedade. E não vejo que melhore, o que é pena.
Li tudo com atenção e dos dez pontos, não concordo a 100% com o sete.
Porque é que a comunhão na mão, não é correcta?
Desde os meus tempos de catequese que sempre fui ensinado por todos, inclusivé pelos padres, a comungar na mão.
Oh Remus, agora é que me entalas, não esperava ter de explicá-lo tão cedo, porque responder bem respondido levará o tempo que agora não tenho, mas não te quero deixar sem resposta.
Sucintamente (e com alguma imperfeição) a explicação é esta, e em tópicos para me ajudar a organizar as ideias: 1) apenas o sacerdote (por via do seu ministério) está em condições de tocar no corpo de Cristo. Acreditando que a partícula já não é pão mas sim o corpo de Cristo, e assumindo que não somos dignos d’Ele, não lhe tocamos com as nossas mãos que são impuras e veículos do pecado. Antes, comungamos directamente na boca, conduzindo o corpo de Cristo para o nosso interior; 2) Há, infelizmente, muita gente que usa as partículas consagradas para actos de feitiçaria e outros gestos de desrespeito, e isso evita-se melhor se a comunhão for na boca; 3) Porque o sacerdote é o representante de Cristo na eucaristia, é ele o veículo directo entre Cristo e nós próprios, via que se quebra se as nossas próprias mãos tocarem o corpo de Cristo.
Ao contrário do que se crê, a comunhão na mão não era algo a generalizar. Li algures (e procurar isto é que me vai levar tempo) que essa permissão foi dada num contexto muito específico, que depois alastrou com muita rapidez, em parte por crescente banalização do culto, mas também porque crescia entre muitos o receio com doenças. O facto é que uma comunhão bem dada e bem recebida, na boca, não implica que contacto físico de espécie alguma.
Noutro aspecto, porventura mais polémico porque muitos rejeitam essa hipótese, em revelações privadas (i.e., não na Bíblia mas em revelações que místicas/os tiveram nas suas vidas – locuções interiores, visões, etc) Cristo revela-nos que não gosta de ser dado em comunhão na mão, e que não gosta de ser dado por outras pessoas que não os seus sacerdotes.
Como eu acredito na validade das revelações privadas (embora, é certo, seja precisa cautela porque charlatães sempre os haverá) também tenho como válido que não se deva comungar na mão.
Tenho alguma literatura com chancela do Vaticano que aborda esta questão da comunhão, se existir interesse na matéria poderei procurá-la e elaborar um pouco mais o assunto, e fá-lo-ei com muito gosto (embora não saiba exactamente quando…).
João já agora responde só a esta jovem agnóstica, sff.
Se não repetir todos os gestos dos cristãos dentro da igreja, mas não desrespeitar o culto que está a decorrer. É má educação?
Digo isto porque acredito piamente no respeito que devo ter a todos os fiéis dentro do seu espaço de culto. Mas quando sou convidada para casamentos católicos ou baptizados não rezo, não me ajoelho, não me benzo e muito menos vou comungar.
Se não partilhas da mesma fé, tudo quanto te é requerido é que tenhas uma presença sóbria. I.e., se não te ajoelhas, não te sentes, fica em pé. Isto porque tu própria perceberás, pelo comportamento das pessoas, que se trata de um momento importante, e logo aí saberás que não te deves sentar. Muitas das críticas que faço, faço a quem se diz católico que é quem teria obrigação de saber melhor o que fazer. Quem não tem essa fé, tudo quanto tem a fazer é observar as coisas à sua volta para não colidir de frente com o que os outros fazem. Não vos é pedido que se benzam ou ajoelhem se não acham que isso faz sentido. Mas já se pode pedir que não conversem o tempo todo, que não se sentem nos momentos em que se percebe que se está a passar algo de importante e em que a todos se pede alguma postura mais atenta, e que se vistam com decoro.
Eu não sou muçulmano, se entrasse numa mesquita procuraria ser sóbrio, observar os comportamentos dos demais e imitar tudo aquilo que me parecesse caber dentro da sobriedade evitando, claro, os gestos muito próprios dessa religião (o que provavelmente seria tudo aquilo que eu desconhecesse
)
Boas,
Antes demais obrigado pela sua explicação, mas não fiquei completamente convencido.
“Apenas o sacerdote (por via do seu ministério) está em condições de tocar no corpo de Cristo.”
Isso não é totalmente verdade. Durante a consagração sim, mas não durante a comunhão.
Temos o exemplo dos ministros extraordinários da comunhão. Eles não são padres, são leigos como todos nós e no entanto tocam no corpo de Cristo.
Aliás, na minha “santa terrinha”, numas das capelas só existe eucaristia de 15 em 15 dias. Nos domingos em que não existe eucaristia, as pessoas vão na mesma à capela para celebrar a palavra e a respectiva comunhão. E são elas próprias que tratam de tudo.
“… nossas mãos que são impuras e veículos do pecado …”
A pensar assim acho que não haveria nenhuma parte de nós disponível.
E a boca também não o é? Quantos pecados não faz com a boca?
“… muita gente que usa as partículas consagradas para actos de feitiçaria e outros gestos de desrespeito …”
Mas se alguém for com essa ideia, tanto faz que seja na mão como na boca. As pessoas com essa mentalidade tanto tiram da boca como da mão.
Em relação às ditas “revelações místicas” nem vale a pena dizer nada, porque podem não ser verdadeiras. Sendo a comunhão a recordação e a homenagem à última cheia, em que Jesus partiu o pão e deu-o aos seus discípulos. Não sei se a bíblia diz que o deu na boca, mas não acredito que o tenha feito. Acredito que tenha dado de mão na mão.
Não sabia que além de geógrafo, também era um erudito de assuntos católicos.
[]‘s
Eh lá, que exagero Remus, nada erudito. Apenas leio umas coisas.
Concordo com vc sobre varias atitudes que voce ressalta serem dignas da igreja, mas gostaria de
lembrar a todos que o amor de Deus deve estar principalmente em nossa atitude com o mais próximo, pq não chegaremos a Deus se não respeitarmos e amarmos o nosso próximo como Deus nos ama.
Então a atitude de humildade e respeito devem começar fora da igreja com os nosso irmãos.
Abços