A desistência

Enquanto se reduzem rapidamente os dias que levarão uma muito boa amiga minha para o matrimónio, vejo-me rodeado de gente que se divorcia, casamentos ou uniões que vão tombando com maior ou menor ruído. Parece uma coisa contagiosa, que vai batendo às portas. Tal como no Antigo Testamento, dir-se-ia ser necessário pintar as portas com sangue do cordeiro para que a fúria divina não entrasse. No caso, as portas das casas onde as pessoas vivem estão demasiado abertas. E abertas a tudo. Das vezes em que dou por mim a pensar nisso, temo que as pessoas tenham desistido de investir. Temo que se desista cedo demais, que se tenha perdido a paciência para encontrar compromissos, para saltar muros.

Uma relação a dois é uma coisa que exige compromissos. Porque somos todos diferentes. Não devia ser uma surpresa, devia ser algo esperado, mas as pessoas surpreendem-se e cansam-se quando lhes surge uma dificuldade, quando discutem sobre hábitos diferentes de arrumar roupa nas gavetas, do local onde deixar os sapatos, dos tampos da sanita. E a oferta é tanta, os apelos tantos, a disponibilidade para perseguir moinhos sem censura social é já tanta que as pessoas desistem à primeira e seguem o caminho do maior prazer. E isso, eu acho, é um pouco triste. Porque nos afasta de um projecto de vida, porque nos pode conduzir a um espaço de grande solidão, porque as pernas com a idade perdem a genica e a capacidade de saltar de pedra em pedra sem nos molharmos é menor, e um dia damos por nós sozinhos e sem projecto, sem partilha.

Pode ser difícil, pode não apetecer, mas é importante redescobrir aquilo que nos levou, no princípio, a dar o passo do compromisso. A ideia de que a galinha do vizinho é sempre melhor que a nossa, e não nos oferece tantos obstáculos, é apenas isso, uma ideia. E também se aplica a galos. É preciso investir, é preciso construir, valorizar, apostar num projecto que fazemos a dois, por pessoas que confiam, porque tudo o mais é razoavelmente passageiro, e a quantidade de galinhas não é garantia de qualidade.


5 comentários

  1. Já vai longe o tempo em que as pessoas consideravam o casamento como uma instituição intocável.
    Casava-se e era eterno, mesmo que os intervenientes no processo fossem as pessoas mais infelizes ao cimo da terra nada podia ser alterado, o lema “Até que a morte nos separe” era válido para todo o sempre.
    As coisas mudaram mas infelizmente nem todas as mudanças são tão eficazes quanto o desejado, senão vejamos, hoje em dia ninguém escuta o parceiro, existe um egoísmo de parte a parte em que não pensamos nos sentimentos, nas vontades, nos desejos do outro lado.
    Parece que é um compromisso unilateral, só vemos um lado e achamos que a razão está sempre do nosso.
    Depois olhamos para aquela pessoa que um dia surgiu na nossa vida como um sol brilhante e vemos um desconhecido que não nos diz nada e parece que nunca conhecemos realmente.
    Esquecemos que as pessoas mudam,as contrariedades da vida vão alterando a nossa forma de estar perante a vida, e muitas vezes aqueles rapazes e raparigas alegres e cheios de vontade de viver, ficam amargos, desgastados, e revoltados porque os sonhos não aconteceram.
    Então começamos a olhar para o lado e a oferta é demasiado tentadora, para entendermos que é apenas uma ilusão passageira, uma vontade de satisfazer apenas a falta de carinho que sentimos.
    Daí ao afastamento vai um passo, surgem as recriminações a falta de paciência, enfim um cem número de acusações que não ajuda em nada uma relação já por si fragilizada.
    Concluimos que no fundo perdeu-se aqui muitos valores que em tempos eram preciosos para o cimentar da família.
    Na minha experiência ao longo da vida, também passei por um casamento falhado em que nada havia a fazer, porque os desejos e vontades eram bem diferentes, e não havia forma de tentar fosse o que fosse, resultado de uma imaturidade que aos 17 anos não temos.
    Depois um novo casamento que já dura há 25 anos, e que acaba de passar por uma crise bem dura, com muita mágoa, mas no fundo com muito amor.
    O abanão fez-nos voltar atrás e ver o que estava esquecido, estamos em luta diária para salvar o que nos uniu, e penso que vamos conseguir.
    Descobrimos que amadurecemos, que afinal temos ainda muito para dar e redescobrir em cada um de nós aquilo que nos fez constituir família.
    Só um conselho não desistam do amor, mas só se isso vos fizer felizes e realizados, somos pessoas e não máquinas por isso também temos que pensar em nós próprios, não conseguimos fazer ninguém feliz se não o estivermos também.
    Então sim lutem com todas as vossas forças, e agarrem essa felicidade que foram construindo ao longo dos anos, aproveitem cada momento, e não se esquecam que o importante é sermos felizes.
    Um beijinho
    Manuela

  2. A uma semana do meu casamento é triste ver que todos os que me rodeiam olham para este passo como um suicidio.
    A verdade é que aos 25 anos percebi bem cedo que para construir o amor que tenho hoje tenho de lutar todos os dias, pensar no que o lado de lá esta a sentir e achar que o mundo nao roda à minha volta.
    Todos os dias luto e agradeço por esta familia em construção e pela nossa casa e vida fantástica.
    Por diversas circunstâncias familiares, o nosso amor nasceu num tempo muito turbulento o que levou a testar como reagiriamos como um casal às diversas contrariedades. Aprendemos a ouvir, a decidir em conjunto e a agirmos como uma equipa e não como 1 e outro.
    Acho que hoje é isso que falta a muitos, ter tempo para construir uma equipa que se apoia nos tempos mais dificeis e desafiantes e que se diverte nos tempos mais fáceis e risonhos. Tenho muita sorte em ter achado um Companheiro e não apenas uma relação amorosa.
    Estou muito feliz e apesar do mau exemplo dos meus pais, aprendemos com os seus erros e tenho muita esperança em construir ainda mais e melhor.

  3. Antes de mais, desejo as maiores felicidades à Rita.

    Acredito que a felicidade no amor depende apenas de nós (ambos), apesar de ter passado por um casamento falhado. No meu caso, acredito que assim foi porque nos encontrámos muito novinhos, e ao longo do nosso processo de formação como pessoas fomos ficando diferentes. Até que éramos tão diferentes que surgiu o desencanto e deixámos (porque a culpa é mesmo nossa) morrer o amor que nos unia. Mesmo assim, foram quase 20 anos de relação (14 de casamento).

    Recentemenre, reencontrei o amor. Um casamento sem papel, mas com mais maturidade, com outra perspectiva e o triplo da felicidade.

    Por mim, (e sei que por ele também, que já passou pelo mesmo) desta vez é para sempre! Até que a Morte nos separe.

    Beijinhos,
    T

  4. Rita,

    Desde já muitos parabéns pelo enlace, não nos conhecemos mas desejo-te as maiores felicidades.
    Eu continuo a ver o casamento como uma felicidade, em que recebemos e transmitimos amor,ideias, desejos, enfim compartilhamos a vida a dois.
    Claro que nem tudo é um mar de rosas, existem momentos menos bons,e aí os dois lado a lado unem esforços para ultrapassar as adversidades.
    E que bom que é quando olhamos para trás e pensamos naquelos momentos lindos, só nossos cheios de felicidade.
    E isso faz-nos esquecer tudo o que de mau vai surgindo.
    O importante é lutarmos por aquilo que queremos, e claro com alguém bem perto de nós torna-se muito mais fácil.

    Um grande beijinho
    Manuela

  5. Não será tanto assim Rita. Não olhamos todos para o matrimónio como um suicídio… ;-)

    Sou pró-matrimónio. Acho que quando as pessoas sentem que é esse o seu caminho de vida, devem vivê-lo e compreender as suas dificuldades e investir nesse plano.

    Não é fácil, actualmente, manter bons casamentos. Não sei se alguma vez foi, mas actualmente, seguramente, não é, porque somos tão bombardeados com apelos de prazer rápido, que a inevitável monotonia das coisas que perduram nos descasca alguma paciência. Mas amando, conseguimos.

    Eu acredito que um casamento não é uma forca. É uma união. Uma fusão de planos de vida. Que vale a pena fazer.

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