Eu tinha corrido tanto. Estava tão cansado, tão esgotado de tudo. E ninguém queria saber, ninguém me perguntava, se me magoava, se sofria, se existia dor. Ninguém queria. Mas tinha corrido tanto, e feito tanto, e passado tanto, e escorria-me tanto suor no rosto, custava-me já tanto respirar, arrastar os pés, lentamente, um à frente do outro numa sucessão, numa rotina, num ir por ir, porque é preciso chegar, tenho de chegar.

Entrei tão exausto no estádio, e não via ninguém na pista, ninguém à minha frente, e sobre o ombro olhava e ninguém vinha atrás de mim, e eu tinha de continuar, de correr, acelerar o passo, ganhar, chegar. E a recta já ali, o ar depois da curva, a meta à vista, e tanta vontade de parar, de descansar um pouco, deixar-me cair e desligar, e a meta mais perto, um pouco de entusiasmo talvez. Ia chegar, a meta ia chegar, e por fim foi linha que ficou para trás, passei-a sozinho, sem ninguém à frente, ninguém atrás.

O cansaço era tanto, e eu via tão mal, que só depois de tombar, só depois do chão, vi que o estádio estava vazio, que eu tinha chegado, sim, e tinha chegado de um modo muito destacado. Muito destacado, em último. O primeiro do lado de lá, quando se corta a meta e já não há fita, flores, medalhas ou beijos. Corta-se a meta em último. Sozinho.