Lento

Passei a porta e ela fechou-se atrás de mim. Estavas à espera e fizeste-me sinal, apressada, enquanto me ordenavas “não digas nada”. Depois empurraste-me contra a parede e pressionaste o teu corpo contra o meu, primeiro com suaves movimentos de quem se ajeita, depois imóvel, em absoluto silêncio, de cabeça encostada a mim, o teu coração e o meu, primeiro mais rápidos, a pouco e pouco pacificando-se, a respiração conjunta, e as minhas mãos nas tuas costas, lentas carícias, e eu sem dizer nada como me pediste.

Findo um tempo, de certeza menos do que apetecia, separaste o teu corpo do meu, encostaste os teus lábios aos meus, docemente, devagarinho. Por fim, olhaste-me de um modo que eu não consigo descrever, nem para mim nem para a escrita, abriste a porta e deixaste-me ali, contra a parede, acompanhado pelo vazio, sem mais.

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