Não és como o aço

Ninguém te pergunta como estás. Não para querer mesmo saber. Podem perguntar-to por educação, aquela cortesia num cumprimento, e provavelmente dirás que estás bem, que está tudo em cima – não se sabendo exactamente em cima do quê ou de quem, mas quase de certeza em cima de ti – e a conversa segue. É justo, porque o que te carrega não precisa carregar os outros, que mais ou menos, muito ou pouco, também carregam coisas que são deles e não te interessam. Mas de estar tudo bem em estar tudo bem, o tempo soma e tu estás cada vez menos bem. Mas ninguém pensa nisso. Ninguém quer mesmo saber.

Deves ter a ideia de que precisas suportar o mundo, é quase certo para ti que se não o suportares as coisas deixam de girar. Mas na soma do esforço, subtrais-te de ti, desapareces aos poucos. Se eras esponja, depressa te tornas parede, e a água que nela cai escorre para o chão por inteiro. Percebes, depois da negação, que estás exausto, que as palavras que te dizem não ecoam, que a energia para te dedicares ao que te paga o pão na mesa é pouca, sai com dificuldade, e estás uma sombra, uma migalha, do que te lembras de ser.

De tanto te esforçares, um dia desfazes-te em cacos. Não te podes cansar todos os dias todos os anos. Ninguém vive longamente assim, e se estourares cai mesmo tudo, tens de perceber que não és como o aço, e que se não podes mesmo parar, tens pelo menos de dividir, de reduzir. Para não morrer cedo, demasiado cedo.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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