Nunca guardes os teus inimigos no bolso das calças

A sabedoria popular manda guardar os amigos perto, e os inimigos ainda mais perto. É como ter os amigos no armário enquanto que os inimigos se transportam no bolso das calças, perto, pertinho, ali ao nível das gónadas, porque há pouca coisa tão preciosa para um homem quanto as gónadas, de onde ele veio, e de onde dele partem coisas que geram novos homens. E mulheres. E um inimigo nos bolsos das calças só poderá querer fazer uma coisa: morder-nos os tomates.

Na assinalável extensão do meu desconhecimento, não sei dizer de onde veio essa crença popular de que os inimigos se querem perto. Poderão ter vindo de Mazarin e do seu Breviário dos Políticos, escrito ali pelo século XVII se não me atraiçoa a memória, mas não estou seguro disso, de que venha de Mazarin, e não estou, de todo, convencido de que a forma como vejo interpretar Mazarin seja a mais correcta.

A ideia de ter os inimigos perto, conforme o Cardeal recomendou à época, servia para guardar junto a ti aqueles que sabias poderem prejudicar-te na tua ausência. Recomendava que, por exemplo, levasses um inimigo contigo numa viagem que fizesses, pois dessa forma inibia-lo de agir contra ti enquanto estivesses fora. Isto tem muita utilidade para inviabilizar fodas. Imagina que a tua mulher pisca o olho a um personal trainer mais jeitoso que tu, e que ele não se importa de lhe treinar algo mais que os glúteos. Nesse caso, segundo Mazarin, se tiveres de sair da tua cidade em trabalho deves convidar o inimigo para ir contigo, porque dessa forma sabes que ele e a tua mulher não vão poder praticar o coito na tua ausência. Nesse tanto, fosse isso prático ou possível, Mazarin teria toda a razão. Afastar o inimigo do seu intento material anula-o. O mesmo não julgo poder dizer dos ambientes profissionais.

Seguindo essa máxima, a de ter os inimigos mais próximos que os amigos, alguns que eu conheço inibiram-se de correr a pontapé e varapau pessoas muito tóxicas para as organizações que dirigiam. Achavam que era mais seguro manter a escumalha pertinho, porque assim podiam vigiar a escumalha, controlar a escumalha, anular a escumalha. Não podiam estar mais errados, e prova disso foi terem tombado aos pés da escumalha.

Pensar-se-ia, nos tempos de Mazarin, que ter a escumalha inimiga por perto era boa forma de saber o que andavam a fazer. De ler as suas intenções e obviar armadilhas. Afinal, dir-se-ia, um inimigo que está demasiado perto está tolhido, tem os movimentos limitados e menos oportunidades para aplicar o seu veneno. No tempo de Mazarin, talvez. Hoje, definitivamente não.

Pegando em Maquiavel e no seu Príncipe, retira-se uma ideia valiosa para isto, que interpreto livremente: um inimigo, se o é porque ofendido, e eu acrescentaria porque motivado para nos prejudicar, mesmo que não ofendido por nós, é sempre um inimigo, não se esquece disso, e procurará rodear-se de pessoas cuja ambição concorra para o seu propósito. Se existir, entre outras pessoas que nos rodeiam, algum motivo para nos espetarem a faca, será fácil a um inimigo próximo recrutá-las para a causa e virá-las contra nós. 

Viver com os inimigos por perto é um desgaste. É sair agastado da cama, arrastar os pés em sofrimento com a perspectiva de passar os dias a medir todas as palavras e todos os gestos, para que não aproveitem ao inimigo. Ter o inimigo por perto é deixá-lo ver tudo, colocá-lo perto dos ingredientes de que possa necessitar para nos prejudicar. No tempo de Mazarin, controlar o inimigo era trazê-lo para perto porque o caminho se fazia de carroça. Nos tempos de hoje, o inimigo pode controlar-se à distância, há formas de saber o que ele anda a fazer, como se move, e pode fazer-se isso sem ter de viver na sua presença, competir com ele pelo oxigénio, cansar os músculos a sorrir-lhe.

Um inimigo que eu tenho perto de mim é apenas um fardo. E tiros nos pés a todos os minutos que passam. Sorrir-me-á, mas na ilusão de que o inibo, dou-lhe trunfos, deixo-o crescer, malévolo, sobre os outros que me rodeiam. Mazarin tinha razão no tanto que se limite a fodas. O inimigo não pode pular sobre a gazela se não estiver lá. Se estiver capturado. Mas na idade da informação, o inimigo não precisa estar capturado para fazer mal. E aí, Mazarin falha. E falha toda a sabedoria popular. A escumalha é para limpar sem apelo nem agravo, é para limpar definitivamente, é para correr a varapau. Antes que invada os neutros e contamine os favoráveis, antes que destile fel, antes que com sorrisos nos faça tombar.

Nunca guardes os teus inimigos nos bolsos das calças.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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