Protege o teu direito às bolachas

Há vinte anos – a conta é redonda, sem a preocupação de atirar ao alvo de modo certeiro – a minha preocupação com o açúcar era diferente da que tenho hoje. E a consciência muito menor. Hoje, o medo de morrer, a perda com essa coisa de morrer, do que fica, do que nos sentimos subtraídos, a noção de finitude, é imensamente maior do que outrora. Há vinte anos, ia eu escrever, um pacote de bolachas não era exactamente um conjunto de bolachas isoladas, era como um bloco uno, uma existência não dissociável em elementos menores. Um pacote de bolachas era para abrir e consumir até terminar. A eito. Gostava muito de bolachas.

A minha namorada de então convidou-me a passar por casa dela. Também gostava muito de bolachas, pese embora o físico dela fosse diferente do meu, não apenas nas coisas óbvias, mas na volumetria. Ela era de silhueta esguia, de certo modo uma gaja boa com as coisas certas nos locais adequados em dimensão certeira, e eu era, já, um portador de excessos, preparado para invernos de carestia em obediência à herança genética do homem das cavernas. Armazenar para sobreviver.

Disse-me ela, então, que lá passasse por casa. Tinha comprado um pacote de bolachas para comermos juntos. Isso podia ser, ou estar muito próximo, do ápice da felicidade peri-conjugal. Havia um gosto partilhado por um determinado tipo de bolachas, algo que fazia as nossas delícias gustativas e que não sei precisar em que nível de satisfação estaria quando comparado com diversas actividades de gratificação física íntima. A expectativa era grande.

Comer bolachas, foder a seguir. Sem recordar com detalhe o que pensava à época, suspeito que fosse pouco diferente disto. Recordo, com alguma exactidão, que nos sentámos e abrimos o pacote. Ela removeu uma bolacha que trincou em pequenas partes, e eu removi outra, que abocanhei, inteira, numa sofreguidão de um mundo que não conhece o dia seguinte. Avançava determinado para a segunda bolacha. O pacote era, lembrem-se, uno, uma entidade contida, conhecida, para consumir do princípio ao fim, para nunca deixar a meio. Estatelei-me contra uma muralha de censura.

Não me deixou comer a segunda bolacha. Senti-me defraudado. Fora convidado para a sua companhia, para a intimidade, a pretexto de um pacote de bolachas que ela havia comprado para nós. E para mim, naquele tempo, poder comer bolachas com ela era soberbo. Mas negara-me a segunda bolacha, e ela mesma não viria a avançar para a segunda. Ficou assim, o pacote, com um universo de sabor aprisionado, e apenas duas, singelas duas bolachas comidas, sem mais. Eu sabia que estava gordo, eu sabia – mesmo que não tão bem quanto hoje – que aquelas bolachas não podiam fazer-me bem, mas eram as nossas bolachas, eu queria a minha parte, eu queria o sabor, tinham-me prometido um pacote, tinham-me criado expectativas, e tinham falhado. Eu ia comer bolachas, a seguir ia – ou assim pensava – foder e um dia ia casar e depois ia ter filhos e continuar a comer bolachas.

Recordo esse episódio sem saber porquê. Algo me levou a essa memória, de algo já tão arrumado e pacificado, e fez pensar que os avisos estavam todos ali. Tal como as bolachas, vários outros alimentos duravam semanas ou meses naquelas mãos. Talvez fosse esse o segredo da sua linha esbelta. Mas esse era também uma parte do segredo para nunca podermos ser felizes os dois, como nunca viemos a ser. As pessoas sempre terão uma míriade de coisas que nos irritam, e nós sempre tentaremos levá-las a mudar, mas ao fazê-lo estamos a introduzir-lhes limitação, a transformá-las naquilo que não são, e fazer delas algo diferente daquilo porque nos apaixonámos ou enamorámos. Se tivermos sucesso a mudar uma pessoa podemos vir a descobrir que essa pessoa já não é aquela que quisemos ter connosco. Se tivermos sucesso a mudar uma pessoa, podemos vir a descobrir que ela está em sofrimento. 

Hoje sou uma sombra do que era há vinte anos. Em alguns aspectos, sou uma enorme sombra desse tempo, compensada pela luz em que me tornei noutros, a idade levou umas coisas e criou outras. Não como bolachas como naquele tempo, não porque delas não goste, mas porque outros mecanismos de controlo se impuseram. Porque o açúcar me cansa, me prejudica. Mas quero a liberdade de comer um pacote completo se me apetecer. Quero a liberdade de avançar para a segunda bolacha sem a censura que se assemelha a uma palmada na mão. Menos que isso, era sofrer. E por isso, ou também por isso, nunca fui feliz para sempre com aquela mulher que ficou no meu pretérito. E do quanto me lembro, também não fodi naquela noite. A bolacha negada viria a ser, literal e figurativamente, um sinal do fim. 

Nunca insistas numa relação com uma mulher que não te deixa comer as tuas bolachas.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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