Naquele tempo fizeram-lhe mal. Há gente a fazer mal a outra gente todos os dias, todos os minutos. Umas vezes sabendo, outras não. Por vezes querendo, por vezes sem conseguir evitar. Mas ali sabia-se, e queria-se. Não havia inocência, não havia inconsciência, havia astúcia, não sei se inteligência mas esperteza claramente, e não era saloia, era urbana, bem focada, com requinte. Sorriso no rosto e faca nas costas. De todas as formas de fazer mal a alguém essa é talvez a melhor, de sorriso no rosto e faca nas costas. Bem afiada, porque o objectivo não é fazer doer muito ao entrar, é entrar e sair sem se notar muito, um golpe rápido, em que a vítima só se apercebe da real dimensão do que lhe aconteceu um pouco depois, quando finalmente cai em si. Não é coisa pouca isto. Há gente boa a sorrir com facas nas mãos.

Depois disso veio muito trabalho. A vida faz-se mais a descer que a subir, mas o tempo das descidas tem algo de bom, a preparação para subir de novo, e tratar de quem nos fez descendentes. Saber esperar é um exercício de virtude, ou uma dor desgraçada, depende, mas faça-se disso o melhor que se pode. E esperar se esperou. Trabalhando nas sombras, a pouco e pouco, com a certeza única de que o que se fazia, fazia-se com propriedade, que era verdade, que a perfídia que tomava conta dos dias era alimentada por factos e não por caprichos, que a justiça estava do lado certo, e viria a vingar. Talvez seja ainda cedo, mas o tapete começa a deslizar, a toalha de mesa começa a ser puxada, e o trabalho, todo o trabalho de fundo, de maratona, parece começar a dar frutos. Naquele tempo fizeram-lhe mal, e embora esteja convencido de que o seu fundo é bom e brilhante, não deixa de se surpreender sempre um pouco mais quando percebe que tem um lado negro muito mais sombrio do que alguém possa pensar, e de que quando o coloca a trabalho, é bonito de se ver.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *