O rosto cobria-se de um manto pesado quando se dizia que ia embora. As palavras que chegavam no vento eram de mudança. Que te vais, parece. Vais para lá, lá longe, parece que te querem, que te vão subtrair, puxar-te, levar-te. E o rosto ficava manchado, alterado. Não vás, não te leves. Ou vai-te, vai-te lá, que é melhor, que é bom, que eu sei que é bom, mas não quero, prefiro que não, que fiques, com as mãos assim, como estão, como as tens.

No fim não foi, não era para ir, não era para ser, não era ali, não era o momento, não era o sítio. O sítio havia de ser outro, diferente, ainda mais pesado, mais alto, mais longe, sem mão na mão, sem mão na pele, um, outro, todos. Não haveria manto pesado a cobrir rostos porque nem sequer haveria rostos, estariam separados pelo fogo que queima e deixa os traços desfeitos. Parece que se sofreu demais, em vão, parece que o sofrimento era terra fértil, necessária, porque sem ele os sorrisos nao tinham chão, não eram mais senão comuns, e só o sorriso que salvava as almas tristes tinha verdadeiro sabor.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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