A falta

Não sou quem tu viste, sou mais, e para quase toda a gente, tão menos. Estou feita de cabedal, curtida, resistente. Deixo que pensem em mim como alguém que não quer saber, que não quer sentir. Sou dura. Eficaz a magoar. Sei espetar e rodar. Como sei abraçar, deixar rolar a lágrima quando a emoção me toma, sei dizer as palavras que puxam e apertam, mãos, pernas, cabelos em cócegas. Sei dar, dar muito de mim, dar quase tudo

nunca ninguém dá tudo, nunca ninguém pode dar tudo, é humanamente impossível
mas pode ficar-se perto

entregar-me sem reserva, deixar tombar as minhas defesas, as minhas barreiras, as coisas que me desconfortam ficam quase despidas e levadas em poeira quando estás perto. Sei tudo, sei tanto, e ninguém vê. Sou tão estupidamente dura, tão cruel, porque me falto, porque me falta, porque tudo quanto há não é tudo quanto preciso, porque me furto, porque nos intervalos da noite sei que me falta, sei o que me falta.

Posted in Crónicas curvas

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