A Lúcia não era a rapariga mais bonita da escola

a rapariga mais bonita da escola, naqueles tempos, era outra. Suponho que era isso que fazia realmente a diferença, aos onze anos ou coisa parecida não escolhemos exactamente as paixonetas pelos valores ou planos de vida, escolhemos pela cara bonita, pelas mamas, enfim, pela embalagem, e se lá dentro vier algo de muito simpático, tanto melhor

mas era mais experiente que muitas. Não sei se era mais velha, não me lembro, desculpem, já lá vão 30 anos, mas era tida por todos como uma rapariga mais experiente, que teria vivido coisas que as outras ainda não sabiam sequer o que eram. O meu primeiro beijo, de lábios nos lábios, não me recordo com quem foi, ou quando. Trinta anos esmagam muitas coisas mas as verdadeiramente marcantes tendem a resistir. Depreendo, por isso, que não foi marcante esse momento. É pena, devia ter sido. Mas a Lúcia, continuemos, tinha um ar menos virginal e não estava tão presa na hora das curtições. O meu primeiro beijo deve ter sido a alguma colega no famoso jogo do bate-pé, essa lista de coisas impossíveis para a idade, naqueles finais de 80, e não ficou na memória, mas o primeiro beijo com língua, esse sim, lembro-me bem, porque foi estranho. Foi a Lúcia quem mo ofereceu, nem sei se diga por favor, como que para ensinar o desgraçado do puto que tinhas as hormonas aos saltos e nunca tinha usado a língua senão para lamber o creme dos bolos. O sítio já nem deve existir, era uma espécie de bosque nos arredores da cidade, a turma toda fora da escola, uns coleguinhas à espreita nos arbustos e eu sentado num muro todo escavacado com a Lúcia à minha frente a prestar-se para me ensinar qualquer coisa.

Dos arbustos vinha a surpresa de alguns que exclamavam olha olha a Lúcia e o João estão nos linguados. Agora não me passa pela cabeça chamar linguado a nada mais que um peixe, mas era assim, talvez ainda seja assim, eu já estou noutra vida em que as coisas não têm esses nomes, os beijos já não se dividem em categorias, ficámos pragmáticos, talvez menos pacientes para categorizar as etapas da sedução, as conquistas. Um beijo é um beijo e pronto. A língua é um adquirido. Algures nos arbustos creio que estava a rapariga mais bonita da escola

fazem-se algumas coisas idiotas quando se é novo. Como naquele dia em que ela tinha um vestido verde às bolinhas pretas, e ali para os lados do pavilhão onde tínhamos educação visual, ela, eu, e mais um par de namorados, decidimos ir para perto do campo da bola competir pelo beijo mais longo. As opiniões dividem-se, mas estou capaz de jurar que o nosso foi o vencedor, ainda que por muito escassa margem, milissegundos talvez, porque a páginas tantas o beijo já era tortura e assim que se percebesse que um dos pares tinha desistido, o outro desistia logo depois, para repousar os músculos e subtrair os corpos às posições desconfortáveis em que se estava. E no mais, por aquela altura, já todo o campo de jogos, e seu público, tinha parado o que estava a fazer para nos observar. Assim como os meteoros, que brilham muito e morrem a seguir, também nós tivemos o nosso momento de fama naquela escola preparatória, capazes de parar toda a gente e por um momento (enfim, perto de dois minutos talvez, logo se vê que foi um beijo principiante e pouco treinado, ainda que convicto e excitante) os mais populares do pedaço

mas naquela altura, não obstante o interesse que existia, a relação ainda não, e em rigor eu andava a tentar treinar para um dia mais tarde, quando estivesse com ela. Esse dia viria, de facto, e num dos longos caminhos em direcção à casa dela, num namoro lento da estrada a subir, pergunto desajeitado e até mesmo rude – hoje parece-me profundamente rude – se ela dava linguados. Merecia que me tivesse dado um, sim, mas na cara, um peixe na cara, mas discreta lá me disse que sim, e quando nos despedimos no local de sempre, trocámos um dos piores peixes que alguma vez a terra viu. Não o diria por ela, coitada, diria por mim. Viria a melhorar, mas aquele foi francamente mau. E eu sabia. Talvez me tenha condicionado para o futuro, há inseguranças que nos marcam, essas sim, e persistem por 30 anos, talvez por 40, por 50, enquanto estiver vivo, enquanto me lembrar.

A vida, pouco preenchida nos amores, não me trouxe muitos lábios, nem os faciais nem os outros, para beijar. Mas ainda coleccionei, nem sei, talvez duas ou três críticas negativas. Construtivas, é certo, sem intenção de magoar, mas definitivas naquilo que entretanto se tornou a minha convicção e orienta este textículo: de facto, eu beijo mal. Acabei por me refugiar noutros talentos, noutras coisas que, vendo bem, talvez tenham o dom de satisfazer muito mais uma mulher do que um beijo, por muito importante que ele seja no despertar de desejos, que é. Mas disso, nem a Lúcia, nem a rapariga mais bonita da escola, viriam a saber.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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