Atrás de mim virá, quem de mim bom fará!

A língua portuguesa, rica, rica de lamber selos, colheres e vulvas (melhor seria escrever genitálias, não centrando o raciocínio no meu género), é também rica nos inúmeros provérbios que tem, um deles, o que está em epígrafe.

Tomemos Trump, embora não literalmente. Não olhando à legitimidade, ao método eleitoral ou ao posicionamento político, muita gente considera que Trump é uma besta. Trump, depois do interregno criado por Obama – que também terá sido considerado uma besta por outros – conseguiu até desviar as atenções do Bush filho, até então a besta (em rigor, o burro), mostrando que era possível produzir um presidente pior. Mas eu não vos quero escrever sobre presidentes. Nem os de fora, nem os de dentro. E não estou sequer a querer fazer juízos sobre as políticas de Trump. Para o efeito, basta-me estabelecer a ideia de que Trump é considerado por milhões de pessoas como uma grande besta, e isso é algo com que todos concordareis (que há milhões a achá-lo uma besta, não necessariamente que também vós penseis o mesmo).

Tomemos agora o provérbio português acima. Ditaria a lógica que sendo Trump uma besta, e fosse isso possível pela constituição americana, melhor seria guardar Trump sossegadinho no lugar, assim como teria sido bom guardar Bush no lugar, porque seguramente a seguir a Trump virá uma trampa qualquer que fará Trump parecer um anjinho. O não menos proverbial “Volta Trump que estás perdoado!”. Ditaria a lógica, dizia, porque o provérbio, como os demais, costuma resultar da experiência popular. Séculos a ver gente ir e vir terão mostrado à saciedade que a seguir a uma besta há sempre outra.

As pessoas, porém, têm horror a bestas. As bestas são aborrecidas de aturar, são tóxicas, e não gostam de concorrência. Dita o bom senso – não a lógica, embora também se encontre, procurando – que as bestas se afastem assim que houver oportunidade. Quereria alguém ficar com Trump só porque sim? À cautela? Creio que não. Meio mundo, ou mais que isso, aguarda a oportunidade para se ver livre de Trump. Mesmo sabendo que depois dele poderá vir pior. Ou igual, o que já não seria mau em mecanismos evanescentes.

A mudança é, como já o escrevi há tempos, necessária e bem-vinda. Não havendo bolas de cristal nem patrocínio da Marinha Grande, não havendo confiança nas cartas que são inspiração do Demo, ninguém sabe, em rigor, o que vem a seguir. A única coisa que se sabe é que as bestas são para remover de imediato, porque não se aguentam. As pessoas querem ver-se livres das bestas que têm hoje, na confiança de que tratarão de se ver livres das bestas do amanhã quando e se as houver. Não há porque temer a mudança ou encolher em arrependimento. As bestas removem-se. E quando se removem, dita a prudência, removem-se sem apelo nem agravo, numa golpada sólida e imediata, que não lhes dê – às bestas – o mesmo dom das galinhas, de correr pelos corredores sem cabeça. As bestas cortam-se em pedacinhos finos e deitam-se ao vento. Sobretudo se soprar de Oeste, que as leve para Espanha.

Observo, ainda, uma certa comiseração pelas bestas. Como se fosse um qualquer síndrome de Estocolmo, que eu prefiro adaptar a Portugal chamando-lhe Síndrome da Porcalhota. As bestas não gozam da faculdade do arrependimento. Gozam, sim, da faculdade de chorar lágrimas que não têm, e de fazer condoer os corações mais ingénuos, crentes na conversão das bestas. Deus manda-nos ser bons, honestos, não nos manda ser parvos. As bestas não se arrependem, nunca, do mal que fazem ou fizeram. Antes, aguardam o reviralho que as trará de novo ao topo onde retomarão as suas velhas práticas com redobrada maldade. E, ainda que quisessemos ter bom coração e aceitar a conversão das almas, que fazer-lhes? Afagar-lhes os cabelos pintando de alva tinta toda a negrura que haviam feito os outros passar? Não deverão as bestas ser responsabilizadas pelo que fizeram? Sentir na pele o mal que fizeram aos outros?

Nem sempre temos o que precisamos para entender. O que vemos é quase sempre, senão sempre, parcial. A verdade das coisas e dos grandes planos é um somatório de partes que cada um tem consigo. Nem sempre entendemos, nem sempre concordamos, nem sempre somos beneficiados com isso. Mas a mudança é precisa. A mudança faz crescer. A mudança move-nos. As bestas removem-se e cospem-se, e o único pecado aqui será não as cuspir depressa, e bem longe.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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