Falamos muito de catarse como escape. Não é errado. Catarse pode ser purificação, pode ser descarga emocional. Catarse pode ser resolução de conflito por uma via que o nosso Ego e Superego aceitem. Dizer-se, simplificadamente, que catarse é escape, serve. Fica ponto assente, e remeto-me a conversa recente em que uma amiga me dizia, após um almoço de matilha – pequena e diversa matilha -, que eu estava a tornar-me um ordinário. Porquê? Porque tinha libertado meia dúzia de impropérios em acelerada cadência, todos eles, é certo, naquele contexto em que me dá gozo: sexo.

Chamei a mim a palavra para lhe tentar explicar que não, que não estava de todo transformado num ordinário, mas senti pouco sucesso formar-se e desisti. Cansei-me pouco depois de começar. Mas não deixo isto cair em saco roto. Antes me socorro da escrita e do meu poço de catarse para pensar nisto. Há muitos anos – estou em crer que foi mesmo há vinte ou vinte e um anos – uma amiga minha disse que as mulheres odiavam ordinarices (leia-se, impropérios) em público, mas estremeciam com eles se ditos em privado. Tomei boa nota dessa revelação, embora pouca gente acredite porquanto, em grupos de conforto, liberte os tais impropérios que devem guardar-se para a reserva de um espaço fechado, onde um e um são dois. Mas eu preciso desses impropérios. São libertadores. Diria mesmo, salvíficos.

E que piada tem fazer uma piada asséptica? Que piada tem procurar transmitir desejo dizendo “Sabe, minha senhora, estou perturbado com o imenso desejo que tenho por si, e nada me faria mais feliz que inserir o meu membro no intervalo do seu ser”? Não. Isto não tem piada, e não tem força, não liberta, não corresponde a nada. O que é preciso é dizer “Pá, foda-se, vamos foder até cair para o lado, quero esgaçar-te essa cona toda até ter o piço em sangue!”. É ordinário. Obviamente. Sabe, minha senhora, estou perturbado com o imenso desejo que tenho por si, e nada me faria mais feliz que inserir o meu membro no intervalo do seu ser É para dizer-se em público? Obviamente não, se, a pessoa a quem queremos esgaçar algo ali estiver e isso lhe for dirigido. Mas se não estiver, tudo se transfigura, no contexto certo pode ser de desmanchar um grupo a rir, e se for dito a dois, na perdição de uma foda fodida, só pode, só pode ser de bom tom. O sexo de bom tom, aquele em que amor e foda são tão sincronizados que mal se nota a diferença, aceita o impropério e bebe dele.

Eu não estou um ordinário. Nem o sou. Tenho, felizmente, a educação necessária para saber comportar-me e falar em qualquer contexto. Sei perfeitamente o que dizer e quando dizer. Mas quando sinto que posso, e se me apetece, não me lixem. Se é para falar de foda, é com impropérios. Se é para gracejar, se é para fazer rir, para tremer nos joelhos, é com impropérios. Preciso deles, são a minha purga salvífica (vá, parte dela) e se não estão bem, ide, ide que eu já não tenho paciência para polimentos onde eles não são essenciais. E se sentir que a mensagem sai com força à custa deles, uso-os sem pudor. Não são os impropérios que me moldam, que me definem, sou eu que me aproveito deles, que os cavalgo, que os conformo ao que quero dizer.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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