Pergunta como estou e é como murro, tal como o meu punho fechado contra a parede, partindo ossos sem sentir dor, e preciso de paz, alguém me entregue paz, e não me perguntem como estou, não me perguntem nada, não quero dizer, não quero saber, preferia não sentir, não perceber, não pensar, não ter murros no estômago, não sentir o corpo tombar todos os dias, morrer todos os dias, ser mais isolada que o náufrago, não ter mar nem praia, o chão não ser areia nem pedra, não haver farol

dizia uma, um destes dias, sobre as melhores formas de matar alguém, e eu achei bem, achei que era certeira a ideia, que podes matar uma pessoa assim, por dentro, aos bocadinhos. Não esperaria melhor que isso, mais vil, de maior perfídia. Como uma queca mágica, como um foder e desaparecer, e lembras-te daqueles dias? Quando a roupa esvoaçava na corda e a brisa era quente, os passos a subir a rua, e depois o frio, tremer como varas verdes, aquecimento, músculos, e a luz, se te lembras da luz, era uma luz tão diferente, um brilho de cinema, como ninguém tem nos olhos, como ninguém vê, porque não há, porque ninguém tem, e no entanto, a matar assim, aos poucos, todos os dias, a morrer assim, aos poucos, todos os minutos

nem porta para entrar, nem escadas de caracol, lâmpada fundida lá no alto e navios a encalhar, o mar agitado, a pele a escorrer, o cabelo colado à pele, e saber que hoje não havia mais, e amanhã não havia mais, e nunca mais havia mais de nada, de tudo, do que fosse, abandono, hoje, depois, amanhã e todos os dias a seguir, e eu sabia, não to disse mas eu sabia, preparei tudo meticulosamente, preparei matar-te, preparei morrer-me, e sem aviso puxei-te o tapete sem olhar para ver se estavas titubeante ou se tinhas mesmo tombado no chão, no buraco, na tumba.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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