Lágrimas de Inverno

Viesse alguém dizer que era um amor de Verão, uma travessura de corpos despidos ao ar e ao Sol, e não poderia enganar-se mais, que o Sol era privilégio de outro hemisfério e os corpos despidos, só despidos no calor de um espaço fechado e na travessura, sim, na travessura de um segredo. Na verdade, chovia. Estava frio. Não havia praia, não havia namoros de calor nos salpicos do mar, não havia trapinhos leves e esvoaçantes, o tempo era de roupa quente, de botas, de salpicos do choro das nuvens a bater nos vidros embaciados das casas, dos carros, de tudo.

A gravidade, essa gravidade que nos prende os pés ao chão, puxava-a sobre ele. Naquele momento a sua cona estava encostada a um caralho duro, incrédulo, e ela decidiu ir na gravidade. Relaxou os músculos e caiu sobre ele, deixou-se penetrar, devagar, o caralho a entrar, a sentir aquela massa pulsante dentro dela, e ele o calor, a fornalha, o impossível. Olhou-o naquele instante. Viram-se nos olhos. Vieram-se nos olhos. Se não havia praia, se não havia senão um imenso frio, havia ali a confirmação, a certeza, a garantia do que se vira nos olhos, do que as caras e os corpos gritaram. E depois com os cabelos a saudar-lhe a face, de lábios encostados ao ouvido dele, a provocá-lo, a perguntar-lhe algo que ele nem sequer percebia naquele instante, de tão espantado, de achar tudo aquilo tão impossível, tão improvável, tão desejado, tão perdido dentro dela.

E depois? Que praias e neves viriam a seguir?

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

7 Comments

  1. As estações do ano não determinam, felizmente, a necessidade imperiosa do encontro de dois corpos. Será quando assim o desejarem, sob uma severa tempestade de chuva e granizo, ou um fustigante sol estival. 🙂

    (Pergunto-me porque estaria ele tão espantado…)

  2. (partindo, então, do pressuposto de que a tese está correcta, ela tê-lo-á ajudado significativamente a aumentar – ou deveria dizer “fazer crescer”? – a auto-estima…:)

    1. (em tese, sim. Mas há sempre os indefectíveis da baixa auto-estima. Por outro lado o espanto pode ancorar-se numa incredulidade por sentir a outra parte melhor ou inatingível, o que pode não ter relação directa com auto-estima. Mais ainda, outra hipótese, ser espanto pela qualidade da experiência, intensidade do momento. Há muitas teses!)

  3. (Hum… Sendo assim, permites-me escolher a tese que mais me agrada?:)
    Ele viu-a sempre como uma mulher inatingível e ela sabia-o. Intrigada e curiosa, deu por si a pensar nele a cada instante. E decidiu entregar-se àquele homem, resoluta e intensamente.
    Ele pasma perante a oportunidade, tantas vezes fantasiada, de a possuir. A ela!
    Resta saber quem surpreendeu quem…

    1. Tendo de imaginar, suponho que as duas personagens se terão surpreendido uma com a outra. Por razões provavelmente muito diferentes, quanto mais não fosse pela forma distinta com que cada género observa as coisas.

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