A arrumação da vida em compartimentos estanques é muito confortável. As coisas são brancas ou são pretas, isso é excelente para o sentido de orientação e não dá muito trabalho. Sabe-se sempre onde as coisas estão e é um modo fácil de manter uma área ordenada à nossa volta. Deslizar em cinzentos é mais trabalhoso, estica-nos mais, torce-nos a pele, não é coisa que se queira muito. As pessoas gostam de brancos e pretos e isso polariza-as. Polariza-nos. Ou se é uma coisa, ou se é outra. Ou se gosta disto, ou daquilo. Defendemos o branco, ou o preto. Não temos de nos perder em idiossincrasias, e os electrões viajam sempre no mesmo sentido. O problema é que nós não somos pilhas. Não somos corrente eléctrica, e muito menos somos binários. Não estamos sempre apenas no branco, ou apenas no preto.

Talvez seja mais fácil ser-se binário quando se é mais jovem. A força que se tem e a sensação de que o mundo se aguentou assim todos estes milénios apenas à nossa espera para ser mudado por nós, faz-nos agarrar a algumas convicções. Escolhemos o branco ou o preto e é aquilo. A erosão molda-nos, como sempre fez e faz a todas as coisas que estão expostas aos elementos. À medida que passamos pelo tempo, vamos acomodando em nós os extremos, vamos percebendo que é possível ser quem somos e ainda assim conseguir aceitar e entender o que está fora de nós. De algum modo percebe-se que o branco nem sempre é branco, ou o preto tão escuro. Os cinzentos existem, e são naturais em nós, porque estamos vivos. Uma pilha terá sempre um polo negativo e um positivo, as coisas inertes são o que são e não se espera que mudem por si. Nós não. Temos estados de alma, temos circunstâncias e provações, temos dúvidas e aflições, temos alegrias e vitórias, temos caminhos que não nos deixam estar sempre nesse compartimento estanque e confortável que é ser-se preto ou branco. Nem sempre conseguimos defender uma coisa e rejeitar o seu contrário. Nesta coisa de estar vivo, somos o que somos, podemos encontrar imenso conforto em convicções que julgamos inabaláveis, mas mais cedo ou mais tarde, teremos de abraçar os cinzentos, porque se não vivemos os cinzentos, não estamos, nunca, verdadeiramente vivos.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

3 Comments

  1. Os cinzentos são apenas fases de transição para um dos pólos… não é um fim em si. É apenas um caminho, porque a indefinição também existe. Depois disso, encaixamo-nos um dos lados… não devemos ficar muito tempo nos cinzentos, só geram impasses… que são necessários, mas não permamentes.

    1. Sofia, compreendo, mas não estou exactamente nesse vector. Estou mais a pensar em como não é possível ser-se taxativo em relação a muitas coisas, não é possível dizer-se “eu penso isto e daqui não me movo”, porque na curva levas com algo que te obriga à excepção. “Detesto comunistas” e a seguir percebes que alguém que gostas muito é comunista. “Não aprovo a homossexualidade” e a seguir dás-te conta que um dos teus amigos é gay. Os cinzentos sobre os quais escrevi desta vez são os das convicções. Podem ser testadas a qualquer momento, e os dois exemplos que dei são apenas isso. E muito limitados.

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