Em algum momento as nossas vidas vivem-se em sensação de mergulho. Poderá parecer-nos que mergulhamos a pique num avião sem estabilizador, com o horizonte azul transformado em verde e terra, de nariz perpendicular ao solo. Muito provavelmente isso não será verdade. É o nosso chão que se relativiza face ao chão dos outros, e enquanto os outros navegam pela vida nos seus planos inclinados muito próprios, navegamos nós no nosso, e o mergulho que nos parece a pique afinal não é mergulho nenhum nem é a pique. É uma turbulência imensa, num ar muito quente e instável que nos abana e testa a solidez, são as ocasiões em que se testa a massa de que somos feitos, em que se mostra quem somos ou, bem mais útil que isso, em que nós mesmos percebemos quem somos. O ar instável dará lugar, inevitavelmente, a outro mais fresco e estável, onde seguiremos calmos. Como o mar. Depois das ondas revoltas entramos em mar chão onde podemos encostar-nos a ver o céu azul e as aves que voam sobre nós. O importante, enquanto estamos a ser sacudidos com enorme violência, enquanto o ar se perturba ou as águas se levantam, é sabermos onde estão, e quais são, as nossas âncoras. O que é que nos prende ao principal de nós, o que é que nos agarra, o que é que nos define, qual é a razão para seguirmos em frente. Todos, sem excepção, precisamos de âncoras. Sem elas, levitamos e deixamos a Terra debaixo dos pés, voamos e perdemo-nos até ficarmos como satélites amorfos, presos numa órbita perpétua. São as âncoras que nos aguentam na tormenta. São as âncoras que nos justificam o sofrimento. Apenas não se caia na ilusão de que as âncoras são imóveis. Assim como os navios as levantam e navegam, também nós as podemos mover.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

Your comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *