Ela disse-lhe até já. Sabia que não seria assim, não lhe falaria mais, far-se-ia morta para todos os efeitos práticos. Não existe, não respira, não se mostra sobre a Terra. Ela não existe. Pensou que talvez mais tarde falasse. Talvez mais tarde vivesse de novo. Ele caiu, adoeceu, morreu. E ela pensou que afinal não lhe tinha dito tudo. E agora era tarde. Passou tanto tempo a fingir-se morta que agora o morto era ele, literalmente.

Do outro lado do mundo, ela disse-lhe até já, e queria que fosse logo a seguir, mas já lhe tinha dito que era uma bomba-relógio. E não queria rebentar-lhe nas mãos. Fugiu, escondeu-se, para que ele não fizesse toda aquela viagem para nada ou um quase nada, para que não ficasse sozinho no meio do oceano. Mas talvez a bomba-relógio fosse mais vida que a vida.

It is what it is, except when it’s not.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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