Nos contos de fodas há príncipes e princesas. Há castelos. Figuras mágicas, e além das fodas, há as fadas. Ali havia sobretudo o conto de foda, que era a expressão visível da magia. A foda não era o fim último, era a casca que envolvia a magia, todas as rodas dentadas que encaixavam na perfeição, rolando sem atrito, e sem óleo. E não havia castelos. O lugar, de certo modo, era lúgubre, tangencial ao feio senão mesmo secante, e gelado. No fundo daquelas escadas, rodada a chave na velha fechadura, revelava-se masmorra urbana da qual faltaria apenas escorrer água pelas paredes. E os corpos chegavam ali a tiritar, e mais ainda tiritavam quando se desnudavam, e ela pedia, docemente, aquece-me, e venciam o frio dos lençóis bicolores, que quando neles deslizavam a princípio era como deitar o corpo em blocos de gelo, e depois o calor criava uma fina película de água que lhes permitia mover sem dificuldade, e por fim do gelo se fazia fornalha, e o tão doce aquece-me que ela pedia dava lugar a ordens, verbos que se impunham, palavras soltas como labaredas ou salpicos de uma fornalha, e não existiam príncipes nem princesas, havia a casca da foda onde cona e caralho ocupavam o fosso da orquestra enquanto as suas cabeças e corações tomavam o palco num pleno domínio da arte. E no fim, sobrava um calor que afastava o frio imenso. Se alguma coisa podiam dizer, e na verdade podiam dizer muitas, era que calor nunca lhes faltou.