A imagem que de mim devolve o espelho é hoje marcada por uma barba salpicada de branco, por um cabelo em retrocesso estratégico, também ele salpicado de um branco que eu, na brincadeira, digo ser apenas demasiado loiro. Reflexos, digo. Reflexos. O dia 2 de Abril de 1976 é assinalado em Portugal como uma relevante data para o texto constitucional, mas, perdoem-me a parcialidade, é para mim mais que isso. Nesse dia, se alguns votavam a favor e outros contra, na Assembleia da República, em Viana do Castelo nascia eu. Completam-se hoje 40 anos.

Devo dizer-vos que a dado momento tive receio, ou senti desconforto, com a chegada dos quarenta anos. A mente é mais jovem que o corpo embora desenvolva resistências, cepticismos e deixe tombar alguns sonhos pelo caminho, mas recordo-me – foi apenas ontem! – de ter 35 anos e sentir que estava na descendente, que os primeiros 50% da minha vida estavam, muito provavelmente, cumpridos, e tomava conta de mim uma espécie de sensação de derrota, de me fugir o tempo para as grandes concretizações. Sinto, hoje, que estava errado.

Em dez anos, dos 30 aos 39, completei o meu mestrado e doutoramento, era um homem sem descendência e agora tenho 3 filhos, não tinha obra e agora posso dizer que fiz algumas coisas, não me conhecia interiormente e hoje conheço-me muito melhor, conheci o ardor das sensações sublimes e o profundo negro da tristeza, tive grande realização profissional e grande queda – esta, patrocinada, não por mérito próprio, que fique claro! Pensando bem, nestes últimos 10 anos, fiz, consegui e senti muita, muita coisa.

Tomei decisões difíceis, adaptei-me ao que não pude controlar, quase conheci o alfa e o ómega. E isso fez-me muito mais preparado. Se há tempos olhava os quarenta como um final de algo, como a idade do limbo em que o que está feito feito está, e o que não se fez, ficou perdido, hoje sinto que nada disso é verdade. Porque sei quem sou, do que sou capaz, para onde quero ir. Hoje sei melhor como fazer as coisas, e sei que os próximos 10 anos são para agir. E vem-me à memória Colin Hay a cantar “Waiting for my real life to begin”:

Any minute now, my ship is coming in
I’ll keep checking the horizon
I’ll stand on the bow, feel the waves come crashing
Come crashing down down down, on me

And you say, be still my love
Open up your heart
Let the light shine in
But don’t you understand
I already have a plan
I’m waiting for my real life to begin

When I awoke today, suddenly nothing happened
But in my dreams, I slew the dragon
And down this beaten path, up this cobbled lane
I’m walking in my old footsteps, once again

And you say, just be here now
Forget about the past, your mask is wearing thin
Just let me throw one more dice
I know that I can win
I’m waiting for my real life to begin

Any minute now, my ship is coming in
I’ll keep checking the horizon
And I’ll check my machine, there’s sure to be that call
It’s gonna happen soon, soon, oh so very soon
It’s just that times are lean

And you say, be still my love
Open up your heart, let the light shine
Don’t you understand I already have a plan
I’m waiting for my real life to begin

On a clear day I can see, see for a long way
On a clear day I can see, see for a long way.

Estou pronto. Venha o futuro.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

  1. Muitos parabéns! 🙂 acontecem sempre mais coisas do que achamos e mais relevantes do que pensamos… e muito mais se irá seguir. É sempre assim. Beijinhos

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