Há espaço suficiente entre mim e o volante para um infinito de coisas. Há espaço suficiente à minha frente para um infinito de horizontes. Tempos de silêncio ou de alheamento puro, mesmo na mais alta música, para pensar sobre a origem e o destino, a semente e o fruto, Adão e Eva, a parra e a falta dela. Dei por mim a pensar na Verdade. Capitalizo-a de uma forma que não é inocente. A Verdade como um princípio, um valor basilar. A nossa cultura, com todos os seus defeitos, continua a educar-nos com a Verdade como um valor a manter. Os nossos pais passam-nos esse ensinamento e nós passamo-lo aos nossos filhos embora eu esteja convicto de que a Verdade não é tão abundante quanto o seu ensino faria supor. Hipocrisia crónica, mas as sociedades são assim. Têm-no sido, temo que continuem.

A Verdade, dizem, é bela, é pacificadora, é salvífica. É garante de paz e tranquilidade, de cabeças deitadas sobre alvas e flutuantes almofadas, como se apenas nos faltassem as asas para anjos. A Verdade, prometem-nos, libertar-nos-á – adiante direi que esta é talvez a única verdade da Verdade -, a Verdade fará de nós boa gente. Não confundir a Verdade com a Honestidade. São coisas parecidas mas não sinónimos. Gosto de Diagramas de Venn. Se a Verdade e a Honestidade fossem parte de um diagrama de Venn, a sua intersecção seria imensa, mas não total. Há espaços próprios. A Verdade é a ética, a boa vida moral, o Império do Super Ego.

E, no entanto, meditando na Verdade, na Verdade pura e dura, temo que seja promotora de cisões, porventura inconciliáveis. Que aconteceria se, numa órbita de um electrão, a todos nos desse para dizer a Verdade toda sobre tudo e sobre todos? O que seria se de repente tudo o que pensamos e tudo o que sentimos fosse dito, sem filtros, sem medir consequências, sem nada que não um despejar de palavras? Seria a Verdade alva? Símbolo de pureza? Seria a Verdade assim dita, sobre tudo e sobre todos (a Verdade de cada um, é certo) tão salvífica quanto no-la vendem? Quantas amizades seriam destruídas? Quantos relacionamentos seriam quebrados? Quantos elos seriam irremediavelmente rompidos? Que salvação nos ofereceria a Verdade absoluta?

A única verdade incontestável na Verdade é a liberdade. Subitamente, sem elos, no caos dos pensamentos e sentimentos livremente expressos, todos seriamos absoluta e definitivamente livres. Sozinhos. Sem ninguém por perto. A Verdade como cisão última. O nosso fim.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

3 Comments

  1. “A única verdade incontestável na Verdade é a liberdade. Subitamente, sem elos, no caos dos pensamentos e sentimentos livremente expressos, todos seriamos absoluta e definitivamente livres. Sozinhos. Sem ninguém por perto. A Verdade como cisão última. O nosso fim.” ou um começo diferente…

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