Afinal foi ao contrário

Aquele era o tempo da ampulheta, em que a areia corria veloz de um compartimento para o outro, como se os minúsculos grãos se empurrassem violentamente para passar primeiro pelo estreito, e quanto menos grãos, mais depressa corriam, como se o tempo fosse um elástico, e de repente estamos em cima e depois a passar o estreito sem tempo de dizer um ui e logo estamos no de baixo. E nesse tempo dizia que esperava um bloqueio total. Que a partir dali, quando toda a areia estivesse no lado de baixo, esperava as trevas, o desaparecimento, a transformação da chama ténue numa qualquer banalidade. Esperava isso do outro lado, estava a preparar-se para isso. E afinal, quando a areia correu toda e do tempo se fez o vazio do que fôra e o imenso do que poderia vir, instalou-se o vazio, sim. Instalou-se tudo aquilo, as trevas, o desaparecimento, mas do lado contrário. E a chama ténue não passou a iluminar banalidades. Manteve-se igual. Da vida dir-se-á que é uma ironia. Outros dirão que é um lamento.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

    1. Sofia, de facto corre. Corre sempre. Mas cometemos bastante o erro de achar que as coisas se acabam antes de acabarem, como se existisse um prazo rígido para tudo. E, no entanto, vamos vendo gente que se reinventa a qualquer momento da vida. O tempo existe, vivamos com ele.

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