Deixo-te amanhã

Deixo-te amanhã. Hoje sou tua, esta noite sou inteiramente tua, somos nós. Mas deixo-te amanhã. Vens buscar-me, vamos ao cinema. Vamos para o escuro como adolescentes com tesão, ver um filme daqueles que eu apenas posso ver contigo porque só tu o entendes comigo, e as mãos passeiam em escândalo, sorvemos a história, o enredo, com pressa de trocar aquele escuro por outro, mais nosso, mais pequeno, mais apertado. Depois corremos para comer qualquer coisa, só para não levarmos a noite assim, com fome, porque precisamos de energia. E vamos embora. Vamos foder. Vamos foder muito, vou foder-te até tombar, e se tu ousares tombar primeiro que eu, acordo-te à estalada, salto para cima de ti, ou então deixo-me enroscar em ti, e voltamos a foder quando o Sol começar a vencer a Lua. A princípio estarei feliz. No começo da noite, estarei muito feliz contigo. Depois, muitas horas depois, levas-me o pequeno-almoço à cama, tão amoroso que és, e eu já a entristecer-me. Vamos para a rua. A cidade vazia com avenidas largas quase despidas de tudo, excepto nós, de mãos nas mãos, como eu gosto e preciso, como tu gostas e precisas. Estou já tomada por um vazio e por uma sensação de tristeza enquanto tu sorris sem saber. Porque de noite era tua, mas hoje, hoje eu deixar-te-ia, e passo a passo, quando te digo adeus, olho-te e

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