Morreste e eu sigo perdido. Morreste e não voltaste ao pó, morreste sem te sublimares, e acredita que estou feliz, estou feliz por ti, por teres morrido sem morreres, mas não queria que te tivesses ido, que a tomar conta de ti estivesse esta putativa morte e não eu, que o teu corpo fosse entregue à foice que corta, desliga, separa, e não aos meus braços que seguram, amparam, abraçam. Morreste e eu sigo morto também, neste trilho de passos mortiços, colecção de momentos de satisfação que me levantam do nada mas não me deixam chegar a ser feliz, espaços da tua ausência, silêncios sem o teu riso despudorado, dessa presença sublime, de quando da exclusividade do estar só chegaste e fizeste circo, o nosso circo, os nossos palhaços, os animais soltos das jaulas a rugir, o nosso rugir. Morreste e agora tudo é névoa, tempo que passa, um Outono que não se esgota, uma pele que não é minha, a vida em espera num lamento que subjaz tudo quanto faço, tudo quanto digo, o tanto que sinto. Pediste-me que morresse, e eu morri por ti, e a seguir morreste tu. E desde então foi sempre assim, mecânico, automático, na lama dos dias, deslizando nos meus trajectos, vazio nos olhares que lanço, à procura de um som, de uma letra, de um pedaço de qualquer coisa, coisas que nunca encontro, e não devia ser assombro. Dos mortos nunca nada se ouviu, e tu estás assim, eu estou assim, mortos, como mortos, de corações a bater baixinho, para não se ouvirem, que dos mortos nunca nada se ouviu.