Pequeno conto de morte

A morte passeia-se poucas portas ao lado da minha, e muitas vezes a vejo passar ao fundo desta pequena rua pavimentada que separa os dois edifícios por onde nos movemos. Ele leva a morte sempre às costas. Sorri para as pessoas como se tudo estivesse normal, cumprimentamo-lo numa quase banalidade, mas nos ombros dele vai a morte. O Martim – inventei-lhe agora este nome – perdeu a mulher da vida dele há algumas semanas. Foram palavras dele. São palavras dele, é o coração dele, aposto. A mulher da vida dele morreu. Melhor, morreu-se-lhe, desistiu de viver, num episódio dramático em que o Martim correu e correu sem chegar a tempo de salvar o coração dele, avisado, estafado, sofrido, para encontrar o seu amor já morto, já passado para o lado de lá. A morte passeia-se muito perto daqui. E é real. Não está escondida, não se finge, não faz por evitar ninguém. É real, e o amor dele, do Martim, está lá longe, numa terra que não é portuguesa. E enquanto o corpo dela jaz nessa terra média, a morte ciranda por aqui. Às costas dele, ou por vezes pendurada no sorriso dele, para esconder o cadáver que caminha neste corredor e se refugia nas tarefas banais de um qualquer dia de trabalho.

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