Deixem-me despir a pele da foda por um instante – como se isso me fosse verdadeiramente natural! -, que a casa afinal é minha, e às vezes os meus dedos destilam outras coisas, batem as teclas para algo diferente, sempre coisas importantes para este João. Porque se não é importante, não lhes bato, não escrevo, não destilo. Recordo um tempo em que o universo tinha branco e preto, e eu apenas via preto, era um adulto recém-chegado, o futuro pela frente, e muita incerteza. Depois fiz-me licenciado, houve uma universidade clássica, reputada, que me passou um papel a atestar a competência para exercer uma profissão. Como que dizendo que confiem no gajo, que o gajo está capaz de ser geógrafo, e somos nós que o atestamos. E então veio o embate com o mundo profissional – que é feio – e um regresso à universidade onde passei mais uns tempos a estudar e a dizer coisas, a fazer contas, a desenhar gráficos e mapas, que o meu negócio tem muitos mapas, muitas curvas, muitas cores, e os mesmos senhores disseram que este gajo agora já nem sequer é apenas um licenciado, confiamos tanto nele que agora é mestre, e foi assim que pisei um degrau mais acima, e aprendi mais umas coisas, e as perguntas a que me propus responder foram respondidas mas criaram-me um enorme problema, o de a cada resposta levantar outras perguntas, que a nada se responde totalmente. Nunca. E não é isto exercício retórico, asseguro-vos! Continuei por lá, mais uns quantos anos de volta das minhas curvas, as curvas que muitas vezes eram fodidas mas não eram fodas, de volta dos meus mapas e dos meus números, milhões de números, e fiz um conjunto de folhas juntas a que se chama uma tese. E hoje, hoje entraram pela porta seis vultos escuros, de ar doutoral – ou não fossem eles professores doutores -, e eu disse coisas. Argumentámos, disseram coisas, eu disse coisas, e agora dizem que o gajo é porreiro. Já nem sequer é mestre. É tão porreiro que agora é doutor. Assim mesmo. Por extenso.

Mas para tudo quanto interessa, sou o João. Como ontem, como antes. Julgo que como sempre.