O João da bofetada

Durante muitos anos – talvez não a maior parte deles, mas ainda assim muitos – das nossas vidas, se nenhum mal prematuro nos sobrevier, habituamo-nos a uma certa ideia de invencibilidade, uma imortalidade virtual, a ideia de que nunca vamos padecer de nada e que os cuidados são para os outros, os problemas são os dos outros, enquanto nós nos vamos mantendo saudáveis e sempre prontos para outra. Vários anos seguidos de análises e exames que devolvem resultados dentro da normalidade ajudam muito a isso. Tirando um ou outro indicador sanguíneo mais teimoso que alerta para possibilidades futuras nebulosas, sabe muito bem fazer alguns exames complementares de diagnóstico e voltar a casa com a segurança reforçada de que somos invencíveis, porque a nossa máquina, o nosso corpo, está qualquer coisa de se recomendar e consumir sem regra. De algum modo, para mim, essa ideia de pessoa indestrutível abalou-se há muito, por via de algo que eu às vezes deixo passar na minha escrita. Mas como sempre me disseram que não se morria disso, a indestrutibilidade – um exercício de auto-engano, consciente, diga-se – ia ficando no horizonte.

Mas agora não. Levei recentemente uma bofetada. Ou pelo menos foi assim que me senti. O exame complementar de diagnóstico veio, e eu não voltei para casa com a segurança reforçada. Do que lá viram, posso não morrer se mudar de vida. Mas no papel vinha o aviso, uma alteração que prova que o caminho que levo com a minha vida é um que me conduz ao que os ingleses chamariam uma early grave. O que lá está, é irreversível, é irrealista pensar que não vai progredir, mas o que está ao meu alcance é reduzir muito a progressão da coisa, para que nunca me mate, para que nunca me impeça de fazer uma vida normal, tão normal quanto normal pode significar em medicina.

Na vida precisamos, para algumas coisas e algumas vezes, de umas bofetadas. De algo para acordar. Para alguns a bofetada, ou o aviso, são a primeira e a última coisa que têm. Eu só me posso sentir grato por ter um aviso bem cedo, e encontrar toda a motivação necessária para algo que já pensava fazer, mudando alguns hábitos que farão de mim um gajo muito mais interessante à medida que os cabelos brancos progridem, mudanças que me permitam, entre coisas tão mais importantes, continuar a escrever sobre a foda que escalda, que me parece ser aquilo que verdadeiramente dá o sal à vida de quem aqui me vem ler.

Mas que me assustei… assustei.

Posted in Crónicas curvas

7 thoughts on “O João da bofetada

  1. Se puderes mudar alguns hábitos para outros mais saudaveis já é uma grande mudança e uma boa ajuda. Quero deixar-te um beijinho. És o joão das curvas…tens que estar aí para as curvas ouviste?

    1. AC, a mudança de hábitos é a solução mais adequada, de facto. Mudança em curso… Beijinho para ti também, e que as curvas nunca nos faltem.

    1. Imprópria… relativizando… foi pequeno. Mas foi susto. Foi o primeiro. Que seja útil. E último, se possível.

  2. Inacreditável como me revi nas tuas palavras! Também eu sempre fui indestrutível, imortal, saudável e inabalável até aos resultados dos exames chegarem. E mesmo depois disso, comportei-me como sempre, mas com urgência na resolução eficaz e completa: resoluta, indestrutível e capaz! Fiz tudo o que tinha a fazer como se tivesse apenas 24h para solucionar tudo, que na pratica foram 5 meses: intensos, frenéticos e nublados. Não tive noção do perigo e estive ali, na ponta da navalha afiada… mas sem saber, por pura ingenuidade. Não sabia que era tão mau. De qualquer modo, depois de constatar o que podia ter sido e os riscos que superei, nunca mais volto a ser a mesma pessoa. E não é conversa da treta, é impossivel! Só espero que não me torne medrosa, apenas mais consciente no caminho que quero seguir. Apenas isso, e já é tudo.
    2015 tem sido um ano daqueles…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *