Invisibilidade sem preço

Morre-se todos os dias. Morre toda a gente. Quando chegar ao final deste texto ele estará já morto, e muita gente terá morrido entretanto, uns por razões que chamaram a si, outros na inocência de nada ter feito, mas terão morrido ainda assim. Escrevo, por ora, porque um familiar muito próximo de um amigo meu tinha o pé no acelerador em direcção à morte. O seu corpo desfez-se deste mundo em ritmo acelerado, e tudo quanto lhe restava viver eram horas ou minutos contados, com os quais espero ter sabido tão bem o que fazer quanto dizem ter sabido no resto da vida que ficou, que foi bem vivida, dizem, que foi como desejou, que foi onde lhe apeteceu, sempre que lhe apeteceu. Nisso sempre há um pouco de fantasia, diria, porque em algum momento sempre se vai por onde não se quer, mas na soma das coisas é bonito, sim, é bonito que se possa sentir que se fez como se fez porque apeteceu assim, porque se conseguiu, porque havia uma vida para preencher, e preencheu-se. Sem mais. E muito claramente, sem menos.

E quando encaro a morte, mesmo que seja a morte de alguém uns quantos nós à parte, mesmo que seja uma morte com uma distância suficiente para me entristecer mas não para levar ao desespero, penso no porquê de tudo. Porque deitamos a perder sorrisos e gargalhadas puras, e sobretudo infinitas, porque deitamos a perder os dedos nos dedos, a magia da corrente que corre entre a pele, porque alimentamos ausências que a morte tornará irreversíveis, porque nos aborrecemos com coisas que na prova dos nove pouco deixam que se veja, porque levamos tanta coisa a peito que o peito não cresce mas aperta por dentro. Que desígnios são estes? Não os quero, quero diferente. Que raio andamos a fazer, os outros de nós que acelerando um pouco menos para a morte do que esta pessoa que hoje me inspira a escrita, também para lá vamos, e comportamo-nos nos nossos dias como se fossemos imortais, jamais sujeitos ao arrependimento ou à sensação do vazio que não passa, vivendo no luxo de uma invisibilidade que não teremos, nunca, como pagar. Que raio andamos nós a fazer?

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Porque somos humanos e insatisfeitos. Porque queremos tudo e talvez o pouco seja suficiente. Porque pensamos muito nas razões e esquecemos a simplicidade da vida.
    Talvez. Não sei.

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