De costas para mim

Encontro-me contigo quando estás de costas para mim, a olhar o horizonte lá longe. O horizonte é sempre longe, bem vês, é o paradoxo de Zenão na ponta dos dedos, sempre que os levantas para tocar o horizonte que sempre te foge. A ti, a mim, a todos. Mas interessa tão pouco o horizonte se te encontro assim, quando estás de costas para mim, e a tua nudez me convida, as tuas linhas invadem-me os olhos e dizem-me que o corpo, esse corpo, é meu antes de ser teu, e num passo estou contigo, estou em ti, e pulsamos juntos, num mesmo movimento, e se ontem nos olhámos, se ontem fizemos o mais demorado amor, hoje fodemos, só porque sim, só porque podemos, porque conseguimos, porque foder e amar são velcro, são coisas que connosco se pegam e ficam unas, são aquilo que são, para nós e mais ninguém, mais nada. E de um gemido forma-se o meu nome na tua boca, a cabeça que oscila para um lado e o pescoço que fica livre para um beijo, a orelha que te mordo e as mãos a percorrer as estradas que te levam onde eu sei que vais querer estar, onde eu vou querer estar contigo, porque conheço todos os teus caminhos, sei como e para onde correm todos os teus rios, e isso, sem mais, é de nos fazer sorrir e ao mesmo tempo tremer sempre que nos encontramos assim, quando estás de costas para mim e me ouves chegar, e mesmo sem nos olharmos, sabemos já o que estamos a pensar, e sorrimos um para o outro sem o ver, sem ver o sorriso, nem o horizonte, que fica longe e longe estando sempre nos puxa.

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