Abismos vorazes

Tu és um homem bom, disse-lhe. E isso, em si mesmo, seria para muitos uma surpresa. Não que ele fosse um homem bom, mas que ela lho dissesse, pois se para tanta gente ela era um bicho frio, de sangue gelado, com a rispidez pronta ao disparo; mas não para ele, para o homem bom, que a sabia diferente de tudo isso. Se alguma coisa sabia, essa pelo menos era segura. Garantida. Não havia ali bicho frio, não havia sangue gelado. Mas ninguém sabia. Também por isso era algo diferente. Especial, arriscar-se-ia dizer. Ou porreiro. Bom mas bom. Escolhessem o que escolhessem, se o significado orbitasse em torno disso, estaria bem. Que ele era um homem bom, dissera-lhe. Parecia trazer pouco valor essa observação, porque se abriam abismos vorazes sob os seus pés, que lhe queria bem, e que por isso, nem que só por isso, ficaria feliz se ele estivesse feliz, que o queria de pé, organizado, firme. Que sempre seria uma pessoa feliz se ele estivesse feliz, e que sentiria na sua própria pele a mesma tristeza que ele, quando ele estivesse triste. E depois prometeu que olharia sempre por ele, que estaria presente para o ajudar, como uma mão invisível que embala ou trava a queda, que nunca mais, em tempo algum, se faria visível. Que estaria morta para todo o sempre, que também ela seria comida pelos abismos esfomeados de gente boa. E, para o facilitar, far-se-ia má, vestir-se-ia de ríspidez, arrefeceria o seu sangue até congelar, seria cruel, e sobretudo não seria mais. Dissolver-se-ia no ar como nevoeiro ou fumo. E ele, ele que fizesse o seu caminho. Porque ele é um homem bom, disse-lhe.

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