A separação

Sou um leitor frequente do Observador. É uma publicação que ocupa um espaço que num qualquer diagrama de Venn intersecta o suficiente o meu espaço para o considerar uma leitura interessante, e sendo certo que a necessidade de sobreviver lhe faz surgir alguns artigos de verdadeiro enchimento de chouriços, tropecei numa leitura, relativa às legislativas de 2015, que suscitou o meu interesse e me levou a querer escrever umas linhas, a propósito da intenção da coligação PSD/CDS de fazer com que o regime normal no casamento passe a ser o da separação total de bens. As opiniões dividem-se. O jornalista que escreveu o lead questiona, inclusivamente, se se trata de “Desconfiança ou independência?”, e eu respondo: pragmatismo!

Sou um gajo romântico. Não vos choque isto. Quando escrevo sobre foda, o romantismo parece não existir. Descrevo danças cruas de caralhos e conas, e o truque está em ser capaz de encontrar o romantismo no meio disso, porque existe, e não é pouco. E porque sou um gajo romântico, entendo que as pessoas não se casam, não se apresentam a um altar (ou a um postigo) já a pensar no divórcio de amanhã. Há casamentos por conveniência e por negócio, sim, sabemo-lo. Mas para a esmagadora maioria dos nubentes, o amor é infinito, e as pessoas casam-se com um projecto. Recuso crer que se casem a pensar “bom, isto vai dar em divórcio daqui a uns tempos“. Mas as pessoas mudam. Enganam-se. As expectativas podem não se cumprir, os projectos podem alterar-se, podem existir tantas coisas a mudar na órbita de um casamento que tudo quanto parecia certo numa data, pode não o ser mais tarde. Nunca se está livre de um abanão, de uma descoberta, de um engano, de uma vontade diferente. Nunca se está livre de descobrir que o mundo é redondo e colorido e se hoje estamos de pé, amanhã fazemos o pino. O jornalista que escreveu o lead questiona, inclusivamente, se se trata de “Desconfiança ou independência?”, e eu respondo: pragmatismo!

Quem recusa o casamento e opta pela união de facto alega, não raras vezes, dois grandes argumentos. Um, que não é um papel que lhes altera o sentimento e, dois, que se correr mal é mais fácil cada um seguir a sua vida. De alguma maneira, parecem ser menos românticos, mais cépticos, mais orientados para a finitude de uma relação do que aqueles que querem casar-se. Em rigor, estão a ser pragmáticos. Talvez reconheçam que nas múltiplas possibilidades da vida, a eventualidade de um divórcio com comunhão de bens adquiridos torna as coisas mais aborrecidas. E esta intenção do PSD/CDS de algum modo retira-lhes um dos argumentos, fica a restar apenas um, o de que um papel nada muda. Eu acho que muda. Mas disso escrevo noutro momento. E se refiro isto é porque acho que o casamento faz muito sentido, apenas não precisamos encará-lo como algo indissolúvel. Entramos nesse projecto de vida imaginando-o assim, é escusado que o mundo pareça ter acabado se descobrirmos que pode não ser assim.

Casar com total separação de bens não é, para mim, um sinal de desconfiança, não é um sinal de que “estamos a prazo”, não significa que temo que me fiquem com o carro ou a casa. Significa talvez, bem mais que isso, separar o que é de separar. O amor, as coisas que unem duas pessoas, e os seus bens. Quem observa a separação de bens com desconfiança achando que isso esconde algo, não deveria perguntar-se, também, se não existe alguma comodidade ou interesse em quem quer muito que os bens sejam partilhados? Julgo, por isso, que é sobretudo uma questão prática. De gente esclarecida e cabeça limpa. De quem percebe a vida, sabe que é fantástico se conseguir aturar o parceiro até lhe dar um AVC, mas não se choca com a facilitação dos aspectos burocráticos se algum dos dois – ou os dois – achar que o tempo se esgotou. Talvez com a burocracia posta de lado, sobre mais tempo, mais cabeça, para viver a foda que refresca (e evita-se isto).

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One thought on “A separação

  1. Casar, juntar os trapos e outras coisas do género… Não acredito que ainda na casa da partida as pessoas já estejam a pensar que vai acabar mal. Não me faz confusão alguma que o regime de separação de bens seja regra. Quem quiser diferente que o diga.
    (Quem sabe com mais foda haja menos separações)
    🙂

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