De pé, frente a ela. Geométrica, angular, com um olho enorme que nos observa. Meter pó. Meter amaciador. Fechar a gaveta e a porta. Rodar e pressionar botões. A água vai subir, a espuma vai surgir, a terra da roupa vai embora e a família ia talvez ficar contra, talvez agora, talvez um tempo, até se habituar. Os amigos iam torcer o nariz, a vida ia ser estranha, a roupa a rodar, umas vezes lenta outras veloz, as paredes poderiam ter outra cor qualquer, a paisagem de outras estrelas, outros azuis, uma censura temporária quem sabe, as vidas afinal tão parecidas e mesmo assim as gentes a sacudir facas sobre os outros como se sobre elas nada se cortasse, e de pé, frente a ela, a olhar, a roupa rodar, os botões todos conhecidos às escuras, que fazer, e o nó górdio a apertar-se, a angústia a instalar-se, sentir a areia fugir das mãos e as mãos vazias, a boca seca, o beijo só, braços vazios, mas a terra da roupa vai embora, a água a subir e a espuma, a corda que se conhece, o vento que seca, e no fim, no fim é meter pó, meter amaciador, fechar a gaveta e a porta, rodar e pressionar botões. A água a subir, a espuma também, e as lágrimas a pingar.