Uma pessoa que conheci de raspão há alguns anos, e que me deu formação de âmbito europeu, com uma carreira de 15 anos e situação estável, decidiu abandonar tudo para, ao que parece, ser artista de circo no Nepal (e não é uma mulher de 20 anos, atenção!). Outra, esta portuguesa, com também qualquer coisa como 15 anos de experiência em comunicação social e também já longe da idade da inconsequência, sentiu-se descontente com o rumo da sua vida profissional e decidiu sair de onde estava, sendo que onde estava, estava razoavelmente segura. Num caso, como noutro, a apologia faz-se com a ideia de seguir o coração, ir por onde o coração manda. O meu coração às vezes dá uns saltos cá dentro. Até existe um nome clínico para isso. [block pos=”left”]Não é desta, ainda, que me torno artista de circo embora seja, indiscutivelmente, um grande palhaço.[/block] Não mata, apenas mói um bom bocado. Não sei se o coração destas duas mulheres lhes saltava no peito. Não sei que sintoma o corpo delas escolheu para as alertar que algo ia mal, ou se nenhum houve e foi apenas a alma que foi escurecendo e pesando. Só sei que decidiram seguir o coração delas e fazer outra coisa. O meu, o meu que salta, deve querer dizer – eu sei que quer – alguma coisa, deve querer dizer-me alguma coisa. Deve querer ir algures. O problema, o meu problema, é um de entre vários. É que ele salta e diz que está a precisar seguir outro caminho. Ele salta e mostra-me que estou mal. Mas ao contrário dos casos que citei, não me mostra caminho nenhum. Nem Nepal, nem deixar o emprego. Apenas se queixa. E eu com isso posso pouco. Não é desta, ainda, que me torno artista de circo embora seja, indiscutivelmente, um grande palhaço.