Pensei tomar um duche, querido. Pensei. Mas tinha o teu cheiro em mim e isso estava bem assim, preferi prolongar esse embalo doce e deixei-me ficar, deixei-me ficar como quando me envolves com os teus braços. Eu gosto que me envolvas. Gosto da tua pele na minha. É uma coisa que eu não vi em nenhum manual de instruções, nunca ninguém me avisou que isso acontecia. Não vi nenhum aviso de ti. Mas gosto da tua pele na minha. Não tem uma explicação. Nem precisa. Como tu a leres os meus olhos. Nunca me avisaram. Eu não sabia. Mas tive medo, tenho sempre medo, medo que leias nos meus olhos alguma coisa de que não gostes, e por isso fujo, desvio o olhar, escondo-me à tua vista. E é sempre tão inútil, tu sabes. É sempre tão inútil se mesmo assim me lês. E eu não sabia disso. Não sabia que alguém me podia olhar como tu. Não estava habituada. Devia existir um autocolante de perigo. Tu devias ter um autocolante de perigo colado na testa. Nem que fosse para eu to tirar, como se fosse roupa, como a roupa. A roupa que nunca nos trava para fazer amor. Fazer amor querido. Essa maneira que temos de fazer amor, que nunca nos deixa dúvida nenhuma. De tudo, pelo menos isso. Se certezas tenho, tenho essa. Como quando entraste em mim, e os olhares a cruzar-se, e eu, então, também te li, também vi, e eu queria tanto, quero tanto, tu a deslizares por mim sem cansaço, e eu a dizer baixinho, quase só para mim, oh foda-se, que isto é tão bom que só pode ser impossível. E então descobri como era feliz ao teu lado, como adorava estar contigo. Em qualquer lado, de qualquer modo, a amar, à bruta, a disparatar, a discutir. Mesmo triste, era feliz, e ninguém mais para me ouvir, ninguém mais para me compreender. E então pensei tomar um duche, querido. Pensei. Mas tinha o teu cheiro em mim e isso estava bem assim. Deixei-me ficar com o teu cheiro.