Ele estava sentado na beira da cama, virado para as janelas, grandes e orientadas a nascente, beijado pela luz do dia que despertava, de mãos sobre as coxas e semblante gelado, inexpressivo quase, rompido pelo pestanejar e um quase imperceptível movimento de uma respiração lenta, pausada. Dali, na projecção do seu olhar sobre as janelas e para lá delas, o Sol vinha indiferente. Vinha para os tristes, vinha para os contentes, erguia-se sobre o horizonte ignorando as almas de toda a gente, sentadas na beira da cama, em pé na rua, deitadas a dormir. Vinha lançar-se sobre os solitários, os indiferentes e os acompanhados, vinha banhar sorrisos num pequeno-almoço ou corpos numa dança de foda. Vinha. Quando bateu mais forte na cara fechou os olhos e sentiu-se aquecer. Fazia contas de cabeça. Em centenas. E quanto mais somava, mais fundo respirava. Tanto tempo, pensava. Tanto tempo. As mãos dela abraçaram-no, sentiu-lhe os dedos, as unhas na pele, o cabelo, e porque fazia contas afinal, se também o rosto dela se iluminava ao Sol, como ela gostava, os dois naquela nudez tão despida de tudo, as pernas por fim entrelaçadas, como ele gostava, parecia que ela dizia que era dela, que aquelas pernas que se trancavam eram corda que prendia, e diziam que não vais a lado nenhum, porque estás aqui comigo, a receber o Sol que sobre nós se impõe, e mais vale aceitá-lo, aquecer com ele, aproveitar que o temos, e rebolar. Vem rir comigo, pedia-lhe, e ele ia, vem cá, dizia-lhe, e ele foi, entra em mim ordenava, e ele obedeceu, e depois disso, no calor do Sol, ficar a ver o dia mexer-se, sem a pressa de entrar à boleia, deixá-lo ir, enquanto ficavam os dois juntos num dia só deles, medido num outro relógio onde as centenas já não eram importantes.