Eternizar momentos

Às vezes fotografo mulheres nuas. É certo que na maioria das vezes que aponto a objectiva às mulheres, elas estão vestidas, mas às vezes, às vezes sim, elas estão nuas. E mesmo quando estão vestidas há sempre um certo grau de nudez, e talvez algumas se sintam mais despidas com roupa do que sem ela. Estimo que se franzam alguns sobrolhos quando pensam nisto de eu fotografar mulheres nuas. Talvez lhes fosse mais fácil se eu fosse ginecologista. Talvez sentissem que eu passar os meus dias com a cabeça enfiada entre tornozelos a observar vaginas em variados graus de deterioração fosse mais casto, mais útil, mais seguro. Mas isto de virar vidro, sensores digitais e o meu olhar a corpos femininos despidos, não, isso não pode ser coisa boa. Este palerma que faz geografia em curvas, que tem sempre uma piada pronta como malaguetas e uma mente muito imaginativa não pode, seguramente não pode, fotografar mulheres nuas e não fazer disso algum tipo de joguinho, de limpeza oftálmica, de alimento à fantasia. E no entanto, se assim pensarem, dir-vos-ei, não me conheceis mesmo nada e tomais-me por outra pessoa que não eu.

Talvez sentissem que eu passar os meus dias com a cabeça enfiada entre tornozelos a observar vaginas em variados graus de deterioração fosse mais casto, mais útil, mais seguro.

Às vezes fotografo mulheres nuas. Vieram depois de muitos, muitos anos com as paisagens que não se queixam e não mudam muito, vieram a seguir aos edifícios e depois a alguns retratos, e a dificuldade cresceu, a responsabilidade chamou, e o corpo feminino colocou-se perante mim assim, a jeito para pressionar um botão e fazer uso da luz. E quando toca a fazer uso da luz, quando toca a enfiar sensações, sentimentos, estados de alma num rectângulo que a câmara me desenha, a responsabilidade chega a ser esmagadora. E importa-me tão pouco se as mulheres que estão frente a mim estão nuas ou não. Não estou apaixonado por elas, não lhes desejo o corpo, nada quero delas que não o respeito mútuo e o esforço por um bom resultado, que a todos faça chegar ao final do dia e pensar que aquela fotografia vai perdurar, vai transmitir alguma coisa que vai tocar a alguém. Não lhes toco sequer, e se tiver de o fazer, é com permissão e com explicação prévia do que vou fazer e porque vou fazer. Quando nos colocamos perante uma objectiva, estamos vulneráveis. Julgamos controlar tudo – tudo! – mas temos perante nós alguém com o poder de nos fazer parecer bem, ou mal, e não temos tanto poder sobre isso quanto pensamos. Vendo bem, o meu lado, protegido atrás do anonimato de uma máquina pesada, é o mais fácil. Sendo difícil, porque me exijo uma perfeição que sei que me ilude, é ainda assim o mais fácil. E essas mulheres, essas mulheres que se colocam frente a mim, nos mais variados estados de nudez – um rosto destapado num corpo totalmente vestido pode ser tão mais despido! – são mulheres a quem agradeço, mulheres que respeito, e que eu espero que tenham sempre sentido isso da minha parte.

Às vezes fotografo mulheres nuas. Mesmo quando estão totalmente vestidas. Podia dizer-vos que é pela arte. Prefiro dizer-vos que é pelo eternizar de momentos, na colecção que todos fazemos, elas e eu, de algo que nos transcenda. E descobri, com o tempo, que a fotografia facilmente nos transcende. Como poucas coisas.

Posted in Crónicas curvas

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