E por ali acelerando, de pé pesado, esbocei sorriso pensando que sei, que eu sei porque és assim, sei da tua força, da vontade, de querer sentir a dor que confirma estares viva, sei porque te esganas entre A e B, parecendo que és uma maluca, uma obstinada a raiar o patológico. É deste nó que a cabeça dá quando o mundo não chega, quando existe uma insuficiência do querer algo que não se tem e toda a vida se julgou faltar, é quando nasce uma bolha dentro de nós que se expande e nos parece querer engolir, como se a vida fosse rebentar num estrondo ou esvaziar-se numa loucura. E quando assim é, é preciso partir coisas, é preciso deixar a fúria esvair-se de algum modo, esvaziar para encher mais logo, e tudo o mais são escapes, estratégias, modos de gerir a ânsia, de sentir que a normalidade é palpável, é coisa que nos integra, porque nunca é fácil, nunca foi fácil, estar fora da normalidade, ser um caso à parte, mesmo quando se insiste que se é banal sem de facto o ser. Não. Não é fácil, eu sei. Acredita que to confirmo, ainda que a minha fúria se destile de um modo diferente do teu, porque então, bem o sabias e sempre disseste, sou a mão que acalma o animal feroz. Até um dado ponto.