Espero que continues a tremer, que o frio te invada o corpo. Espero que te cubram, que puxem de um casaco ou de uma manta e te cubram, que sintas protecção e calor. Espero que continues a estremecer, a sacudir-te, com violência, vezes e vezes como quiseres ou precisares, e que isso te faça bem, te satisfaça. E que alguém o consiga, te arranque as palavras, as frases que tens em ti embora ninguém as pareça conseguir extrair. Podes chamar-lhe uma licença sem vencimento, uma licença sabática, eu prefiro pensar que é um recolhimento. Subiria uma montanha para lá ficar a meditar, mas teria fome, teria sede, teria frio – não o teu frio – e depressa desceria. Recolho-me no meio da multidão, anónimo ou mesmo morto, como afinal me preferem, cansadas que estão as minhas falanges – as distais, acaso se questionem – e este convite, a deitar-me e deixar-me estar, imóvel, calado, neste coma profundo, é já pesado para recusar. Vou fazer outras coisas, sabes? Vou tratar de outras coisas. Fazer o que me falta: tratar de mim. A pouco e pouco. Até ter novamente forças. Até me dizerem ao ouvido do quanto apetece sentir frio. E eu preciso de tratar de mim, porque toda a minha vida, até este exacto momento e seguramente depois dele, senti que me faltava qualquer coisa.

Que mais há, então?

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

3 Comments

  1. Falta-nos sempre qualquer coisa. Por vezes, faz frio e alguém sabe como nos aquecer. Outras há em que parece que o frio não acaba mais.

    Boa noite, João. 🙂

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