Olho para ti e reconheço-me, como se me olhasse num mosaico, e a satisfação que isso traria mistura-se com a preocupação de não querer que sejas igual a mim. Na verdade, não o quero. Quero que sejas aquilo que quiseres ser, e se isso te aproximar dos meus passos, que seja porque os queres, e não porque tos force, ou não consigas diferente. Gostaria que não sentisses levar o mundo aos teus ombros, porque há muitos ombros por aí, não precisas levá-lo todo contigo, e quanto mais vives, mais notas que o mundo não quer saber tanto assim de ti, podes levar contigo apenas um bocadinho e deixar os outros bocadinhos para as outras pessoas. Gostaria que não te preocupasses tanto com tanto, apenas o suficiente com o essencial, que a ansiedade de viver não te impedisse precisamente disso, de viver, e que não tivesses, nunca, medo de falhar, que nunca deixasses de dar um passo no vazio com medo de cair, se com isso apenas te inibes da possibilidade de voar um bocadinho, e depois quem sabe, ou te estatelas ou descolas e nunca mais te colocam a vista em cima, mas em todo o caso, deste o passo, e tudo quanto importa é dar o passo. Gostaria que não ficasses imóvel, que não te deixasses afligir, que não te perdesses numa contemplação que nunca termina, porque um porquê esconde sempre outro, e se te ficas a tentar responder-lhes, não sais de onde estás. E não sair de onde se está é aborrecido, como espero que nunca descubras.

Percebes agora porque me preocupo quando te vejo tão parecido comigo. Não é pelos cabelos dourados que eu também tive, que os tive, é pelos olhos tristes que me mostras, e são tão tristes quanto os meus, porque o mundo é pequeno para eles, como parece ser para os teus.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

3 Comments

    1. Sofia, hoje ficaste a pensar “este gajo hoje enganou-se e escreveu uma coisa bonita para variar”? 🙂 obrigado por comentares e ainda bem que te agradou.

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