Muitos anos. Dirias que muitos anos? Eu diria. Muitos anos esteve aquela figura a dizer umas coisas, escrever umas coisas, a dar-se, a dar de si. Veio o tempo em que ergueram à volta dele uma espessa cortina negra que o impedia de ver à sua volta, e só havia a luz que entrava pelo quadrado acima da sua cabeça, mas ele continuava a falar à sua plateia, a dizer coisas, a discursar, por vezes em desabafos quase mudos, sempre na ideia de que era ouvido, de que havia quem o escutasse. Quando a ferrugem rasgou os cabos que seguravam a espessa cortina, e esta se encolheu na poeira, entrou nele uma profunda tristeza. Olhando à sua volta não existia nada, só as cadeiras vazias e a desconfiança, quase certeza, de ter estado tanto tempo a falar sozinho.