E se a vida fosse apenas isto? Se não nos restasse mais senão somar passos, viajar entre pontos, rituais diários que no final cansam e destroem, fazem acordar de manhã, ou a meio da noite, com um suspiro de não querer levantar, de não saber estar? Se nós não tivéssemos sempre a expectativa de que algo nos espera ao virar da esquina, restar-nos-ia cair numa espiral de depressão ou desassossego, sem encontrar um sentido nas coisas que fazemos. Seria negar o racional que nos capacita, distingue dos outros animais. É a esperança das coisas que as esquinas escondem que nos move, a sensação de que existe sempre mais, mais além, algo melhor, algo que nos falta e vamos encontrar. Por vezes em coisas pequenas, por vezes em coisas marcantes. Não procuramos nem esperamos a novidade em tudo, nem sempre, que algumas coisas estabilizam por si, mas enquanto nos invade a sensação de vazio, enquanto achamos que nos falta qualquer coisa, qualquer que seja, é o passo que ultrapassa a esquina que nos move, é o olhar para lá do ângulo recto, ver o que a sombra esconde, rasgar o embrulho do futuro e trazê-lo perto, ao nosso presente, ao nosso agora e já.