Não sabia tocar. Não tinha esse talento. Se alguns tinha, a música pelos dedos não era um deles. Não tinha piano. A destreza dos seus dedos era outra, de outros movimentos, de melar a pele, não de encantar com notas, das notas que se fazem som e apelam aos sentidos. Mas havia música ali, naquela sala. E havia noite a chegar, ao compasso da terra a engolir o Sol, a pouco e pouco, com as linhas da paisagem a mudar de cor, os contornos a tornar-se difusos a pouco e pouco, os gatos nas varandas e nos telhados já pardos, as luzes dos automóveis já acesas naquele momento do dia em que parecem nem fazer tanta diferença assim, e nuvens, algumas também, a rasgar o azul a pontos, e soava música ali. Piano. O piano que não existia naquela sala, que os dedos dele não saberiam nunca tocar, mas havia piano. Havia piano a tocar de uma electrónica fria, provavelmente feita na China, mas piano ainda assim. Um traço de mi bemol a marcar um tom, ele taciturno, o ambiente nocturno, e um toque de frio.

Os pés dela percorreram o chão fresco, leve, ligeira, quase a deslizar, o tecido da camisa a esvoaçar ligeiramente, e a mão assente no pescoço dele, um beijo na cabeça, o corpo a encostar-se a ele, e sempre e ainda o mi bemol a marcar o tom, e a mão dele a tocar a mão dela, a agarrá-la, e ela a deixar o cabelo tocar-lhe o rosto, a janela em frente a eles, a cidade a encolher-se, engolida como o Sol, a pouco e pouco, as linhas da paisagem já negras, os contornos já desaparecidos, dos gatos nem sinal, as nuvens perdidas num céu pintado de negro, a escuridão a invadir a sala sem piano, os dedos sem teclas, pousados no corpo, a nudez a instalar-se, os braços dela a agarrá-lo pelas costas, a apertá-lo com força, e rodam os corpos, passa a perna sobre ele, senta-se ao seu colo, e segura-se assim, tanto tempo, tantos segundos juntos, até o calor os fazer suar dos corpos a bater corações em conjunto, sem fronteira, sem limite, tudo o que se esconde perfeitamente à vista, e nenhum problema, nenhum receio, complexo, restrição.

Quando termina a música, estão os dois na noite mais profunda. Os animais nos seus refúgios, os carros nas garagens, os contornos transformados em nada, a cidade morta, e eles num choro fininho que ao ouvido lhes diz, eu também.

 

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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