Gesticulavas com alguma violência, e depois afastavas-te, caminhando para longe, pontapeavas pedras no caminho e fixavas o olhar no horizonte, para depois voltar para perto de mim e gesticular de novo, ou bem pior que isso, atirar-me palavras afiadas, frases inteiras no fio da navalha a cortar fundo, e cada palavra era pior que a outra, e a raiva jorrava e dissolvia-se no vento fresco e eu tentava apaziguar-te, e esperavas que o fizesse, tu bem o dizias, que era a parte calma de ti, e tu a bater-me, e a dizer as coisas que o teu coração obrigava, e então segurei-te os pulsos, um deles atrás das tuas costas, o outro acima da cabeça, encostei-te ao carro e o meu corpo ao teu e disse-te, por fim, a um ouvido “Eu não sou um livro”, e depois de te beijar levemente, acrescentei ao outro ouvido “e não tenho páginas”.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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